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Edição de terça, 9 de agosto de 2022.
(Próxima edição: sexta dia 12.)
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“Não quero mais o meu filho”...



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Arte EV sobre imagem HypeScience

Há 40 anos um juiz numa comarca de interior precisava entender de tudo um pouco. Competia-lhe julgar os crimes, as questões cíveis, os problemas de família, de menores, eleitorais, júris e, em algumas comarcas, até as questões trabalhistas. Não havia internet, nem o Dr. Google para consultar. O magistrado precisava contar com sua própria intuição, seu bom-senso e com alguns livros que conseguisse comprar.

Desavenças de vizinhos, brigas de bar, pequenos furtos, inventários e cobranças eram a grande maioria. Raros divórcios e homicídios completavam a lista. Já havia problemas de drogas, mas em pequena escala.

Hoje as drogas tornaram-se o flagelo da sociedade. Não passa um dia sem que a polícia, com todo esforço e dedicação, consiga apreender grande quantidade antes de sua distribuição, fragilizando um elo da corrente. Recentemente, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) apreendeu 16,1 toneladas de maconha em Ponta Porã (MS), cidade localizada na fronteira com o Paraguai e a 316 quilômetros da capital do Mato Grosso do Sul, Campo Grande – o valor era de de R$ 34 milhões. É constante a apreensão de cocaína em fundos falsos de caminhões.

Sempre me pergunto quem está por trás do tráfico?

Sem dúvida nenhuma, não haveria tráfico de drogas se não houvesse o consumidor. Se não há para quem vender, não há porque correr o risco de atravessar a fronteira com drogas no meio da carga. Quem financia, portanto, é quem compra e consome.

A situação do Rio de Janeiro é inusitada. A Suprema Corte impediu a atuação da polícia em algumas favelas onde o tráfico domina. Vídeos de jovens com armas pesadas desafiando a autoridade pública causa arrepios. Onde vamos chegar?

O vício não é apenas um problema policial, mas de saúde pública, pois a iniciação ocorre com drogas leves e que acabam levando ao consumo de drogas pesadas, algumas mortais,

A desagregação da família é uma constante, seja como causa, seja como consequência. Graves crimes são noticiados todos os dias, de filhos contra os pais, no desespero de adquirir mais drogas.

Grande maioria dos furtos e roubos são praticados para obter recursos fáceis para adquirir drogas. A taxa de homicídios cresce, ou por disputa de ponto de venda e distribuição, ou por falta de pagamento das drogas.

Enquanto se discute a liberação, como forma de frear o tráfico, com o argumento de que fumo e álcool também são drogas e seu comércio é licito, vemos filhos furtando objetos de sua própria casa para financiar seu vício.

Lembro de um pai que me procurou desesperado há 40 anos atrás, numa determinada comarca. Não sabia mais o que fazer. Seu filho havia furtado e vendido seu televisor, seu rádio, sua geladeira, seu fogão e outros objetos da casa. Andava maltrapilho pois vendia as próprias roupas do corpo para comprar mais drogas.

Foi angustiante ver o desespero de um pai que busca no juiz uma solução mágica que não se lhe pode oferecer.

Como último argumento propôs o pai de doar para o filho, sob minha supervisão, o último bem que possuía, que era um terreno urbano. A condição é que, a partir da doação, ELE DEIXASSE DE SER SEU FILHO, não restando mais nenhum vínculo dele com o restante da família.

Lamentavelmente, mesmo diante do desespero daquele pai, precisei dissuadi-lo da impraticabilidade daquela formulação injurídica, saindo ele frustrado da sala de audiências.

Era o incipiente flagelo das drogas, hoje trágico câncer social.


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