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Edição de terça, 5 de julho de 2022.
(Próxima edição: sexta dia 8.)
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As mulheres ucranianas e o deputado paulista



Imagem Deutsche Welle

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PONTO UM:

No dia de hoje, 8 de março, homenageiam-se as mulheres de todas as terras, as mulheres de todos os tempos. A data foi escolhida - segundo uma versão - porque nesse dia, em 1917, na cidade de São Petersburgo, ocorreu um movimento de mulheres russas, reivindicando melhores condições de vida e a saída da Rússia da 1ª Guerra Mundial, que estava matando seus maridos, seus filhos, seus pais.

Há, porém, outra versão, remetendo a origem da data para um incêndio em uma fábrica têxtil na cidade de Nova York, em 1911, quando cerca de 130 operárias morreram carbonizadas. Há dúvidas quanto à exata data desse incêndio.

Mas não é importante qual das versões deve prevalecer: ambas representam a luta das mulheres em um mundo dominado por homens. Mas, com todas as vênias às mulheres russas ou americanas ou de qualquer outra nacionalidade, esta coluna, hoje, é dedicada às mulheres ucranianas.

Mulheres que, em condições climáticas adversas, abandonam suas casas, seus maridos, pais, irmãos. Na Ucrânia, em face da invasão russa, foi editada uma lei impedindo que homens de 18 a 60 anos saiam do país. Assim, as mulheres ucranianas, em busca de segurança para si e para suas crianças, para não morrerem sob as bombas, balas e mísseis russos, atravessam o território ucraniano. Sem comida, água, agasalho suficientes, levam nas mãos o que restou de suas vidas: filhos ou netos, uma pequena mala, animaizinhos de estimação, até chegarem a uma fronteira, sem ter a mínima ideia do que as espera, qual seu futuro em terras estrangeiras.

Cem anos passaram e as agressões se renovam.

PONTO DOIS:

Não bastasse esse quadro devassador, as mulheres ucrânias foram, na semana passada, moralmente violentadas pelo deputado paulista, Arthur do Val, também conhecido nas redes sociais pelo nome fantasia: Mamãe Falei.

Político ativista, integra o Movimento Brasil Livre e foi eleito deputado estadual em São Paulo como o segundo mais votado no ano de 2018, com pretensões, até então, de concorrer ao governo do Estado. A pretexto de uma ‘visita humanitária’, segundo afirmou, esteve na Ucrânia nos últimos dias e divulgou um vídeo ressaltando a beleza física das mulheres ucranianas e, embora admitindo que “não peguei nenhuma”, diz que vai voltar no ano que vem, afirmando que “essas deusas” são “fáceis porque são pobres”. E por aí se foi...

Deputado: toda, toda a sua fala no áudio divulgado é uma violência moral, um atentado à dignidade da pessoa humana. Aquelas ucranianas, deputado, não precisavam de ‘elogios’, de forte intensão maliciosa, à sua beleza, mas de respeito, de ajuda humanitária, de empatia por serem mulheres refugiadas, vítimas da guerra.

Dizer que elas “são fáceis porque são pobres” agride tanto, ou mais, que as bombas russas que estão destruindo as cidades ucranianas. O fato de o vídeo ter sido divulgado em redes privadas, deputado, em nada, em nada mesmo, diminui a gravíssima agressão desferida. Sua maior ou menor divulgação não tem o condão de minorar ou agravar a ofensa. Muito menos a justificação por conta da “empolgação”: suas pretensas desculpas só agudizaram o impropério. Sua fala, deputado, é uma vergonha, e não tem desculpas, não tem perdão.

Glória às mulheres ucranianas!


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