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Espaço Vital, sexta-feira 15.10.
(Próxima edição: terça-feira, 19)

Mas, “sol” no plural, se existe apenas um sol?



Arte EV sobre foto de Ted Mc Grath - Sacada de Artesãos - San Telmo – Buenos Aires (ARG.)

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  • Guarda-sol / Guarda-sóis

Sugestão de pauta do leitor Hamilton Périco Zabaletta lembra-me de esclarecer sobre a grafia correta de uma categoria de palavra composta muito usada no dia a dia de quem tem a missão de escrever. Trata-se dos compostos que têm o verbo como primeiro elemento. Sugere como exemplo “guarda-sol” e sua forma plural “guarda-sóis”: Escreve-se com hífen? Alguma das palavras que formam o composto flexiona? Ou flexionam as duas?

Aí vai a regra: sempre que a primeira palavra do composto derivar de verbo, usa-se hífen; portanto: guarda-sol; na formação do plural, mantém-se o hífen e apenas o substantivo “sol” flexiona: guarda-sóis.

Mas, “sol” no plural, se existe apenas um sol? Existe o sol da manhã, da tarde, o sol do verão, do inverno, o sol que bronzeia mais, ou menos, o mais saudável e o menos saudável, entre outros sóis. Portanto, na prática, existe mais de um sol. Outros exemplos: guarda-pó / guarda-pós, quebra-cabeça / quebra-cabeças, lava-louça / lava-louças, guarda-chuva / guarda-chuvas.

Há casos em que a forma singular não tem uso, porque o substantivo que se segue ao verbo se refere obrigatoriamente a pares ou a maior número de objetos: porta-luvas, porta-joias, guarda-livros.

Alerta: é essencial observar se o primeiro elemento do composto é realmente verbo; caso não seja, a regra não se aplica. Em “guarda-noturno”, por exemplo, “guarda” não é verbo, mas substantivo, enquanto “noturno” é adjetivo; neste caso, o hífen é mantido, e no plural as duas palavras flexionam: guardas-noturnos.

  • Ainda Vinicius de Moraes

Na edição da semana passada de Escreva Direito, dei como exemplo de liberdade poética o verso “Que não seja imortal, posto que é chama”, em que Vinicius de Moraes usa com sentido adulterado a expressão “posto que”.

O advogado Carlos Alberto Bencke, culto e sempre atento, questiona se o poeta usou ou não a forma verbal “é” antes de “chama”.

De fato, essa forma verbal em nada contribui diretamente para o significado do verso, sem contar que sua omissão não causaria qualquer problema à métrica, ao ritmo e à sonoridade. No entanto, há uma questão envolvendo o significado de “chama”, que o poeta deve ter levado em conta: em vez de substantivo, sem o uso de “é”, “chama” poderia passar a ser a terceira pessoa do singular do presente do indicativo de “chamar”, induzindo o leitor a um significado indevido. Entendo que tenha sido essa a razão de o grande Vinicius ter optado pelo uso desse pobre mas sempre presente verbo de ligação.

  • Regência do verbo “visar”

O Dr. José Valmir da Costa entende ser oportuno esclarecer sobre a regência do verbo “visar”, em especial para os operadores do Direito, que insistem em ter dúvidas. Ocorre que esse verbo pode ser usado com pelo menos três sentidos diferentes: de assinar (registrar o visto), de mirar (o alvo) e de ter como objetivo.

Com os dois primeiros significados, trata-se de verbo transitivo direto: visei o documento; o atirador visou o alvo; com o sentido de ter como objetivo, requer sempre a preposição “a”: a iniciativa visa ao benefício da sociedade; a regulamentação visa à igualdade entre todos. Mesmo quando se segue outro verbo no infinitivo, ele rege a preposição: a norma visa a dar iguais condições a todos.


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