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Espaço Vital, terça-feira, 07.12.
(Próxima edição: sexta-feira, 10.12)

Posto que / Eis que...



Correio Braziliense

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Estão aí duas expressões bem afinadas com o gosto da linguagem rebuscada, cujo uso se difundiu de forma equivocada em muitos meios, em especial na linguagem jurídica, sendo encontradas em sentenças e acórdãos de todos os tribunais do País, em pareceres de procuradores de Justiça, em iniciais de processos de toda ordem e por aí afora.

Posto que: o sentido desta expressão é de EMBORA, e não de POIS, PORQUE, como vem sendo usada em profusão. Por certo, essa preferência se deve ao fato de o elaborador do texto entender que se trata de uma expressão de nível mais erudito do que os singelos PORQUE, POIS, VISTO QUE, UMA VEZ QUE (melhor que VEZ QUE), entre outras opções. Como se pode observar, há formas para variados gostos, mas a preferência vem recaindo exatamente por forma equivocada. Exemplo de uso equivocado: “O réu foi condenado, posto que infringiu a lei”. Exemplo de uso adequado: “Abandonou a carreira, posto que (embora) tivesse talento”.

O poeta Vinicius de Moraes, em seu famoso “Soneto da Fidelidade”, certamente contribuiu para a consagração do equívoco ao usar a expressão em seu verso “Que não seja imortal, posto que chama”. Em defesa de Vinicius, lembre-se que os poetas gozam do que se chama “licença poética”, que os libera para incorrer em pequenos desvios gramaticais e quando querem atribuir novos significados às palavras, desde que isso contribua para a sonoridade, o ritmo, a rima ou a métrica do poema. Acrescente-se que essa mesma licenciosidade se estende à música, pelas semelhanças que tem com a poesia.

Eis que: o uso correto desta expressão se dá, em regra, em situações inesperadas, de surpresa, como em: “Tudo parecia esclarecido, eis que surgiu um fato novo”. No entanto, assim como POSTO QUE, vem sendo usada com o sentido de PORQUE, POIS, VISTO QUE, UMA VEZ QUE (melhor que VEZ QUE), como no exemplo: “O réu deve ser absolvido, eis que é inocente”.
Mais uma vez, é hora de lembrar: quem escreve não tem o direito de abrir mão da permanente atenção ao significado do que está sendo escrito.

Olimpíada ou Olimpíadas?

Como acontece em todas as edições dos Jogos Olímpicos, nesta que está em curso, muitos comunicadores seguem chamando-a de Olimpíadas, no plural, em vez do correto Olimpíada, no singular. A forma plural é reservada para quando se quiser fazer menção a mais de uma edição dos jogos, como em “as Olimpíadas realizadas no século passado”. O que induz ao erro é o fato de ocorrerem muitas modalidades esportivas.

Intimidade indevida

Jamais me esquecerei de uma entrevista coletiva concedida pelo então eleito Presidente da República Tancredo Neves. Diversos jornalistas se aproximaram do Presidente eleito a ponto de lhe enfiarem os microfones na boca. Incomodado com a falta de respeito dos profissionais de comunicação com a figura da autoridade, o Presidente solicitou que todos se afastassem um pouco, dando-lhe liberdade de se expressar igualmente para todos.

O mesmo incômodo sinto com certas intimidades assumidas por alguns profissionais da comunicação ao se dirigirem a altas autoridades usando VOCÊ ou TU: “Governador, você disse há pouco...”, ou até mesmo o artigo definido, ainda mais íntimo: “O Eduardo Leite afirmou que”, “O Bolsonaro se dirigiu aos jornalistas”, “A Dilma disse que...”. Por mais que não se goste de determinada autoridade, não se trata de um contexto de intimidade; o cargo impõe a necessidade de respeito, de distância protocolar.

O profissional de comunicação, não importa de que veículo seja, é difusor natural do bom ou mau comportamento humano, tendo, portanto, compromisso pedagógico com seus ouvintes e leitores. Não é necessário, nem recomendado, que numa entrevista o interlocutor use o pronome de tratamento “Vossa Excelência”, reservado para situações de maior formalidade, mas, sim, o respeitoso “senhor” ou “senhora”.

O tratamento correto depende sempre do contexto em que se dá a comunicação. Se, por exemplo, o mesmo entrevistador for amigo da autoridade entrevistada e se encontrar informalmente com ela, a situação é completamente diversa, devendo aí, sim, usar forma de intimidade, como “você”, ou mesmo nosso “tu”.


A PALAVRA DO LEITOR

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