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Porto Alegre, sexta-feira, 30 de julho de 2021.
(Próxima edição: terça-feira, 3).
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O anjo do voo JJ-3054



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

No início da tarde de 17 de julho de 2007, um empresário, 40 de idade, almoça com a mulher e os filhos, algumas horas antes da decolagem do fatídico voo JJ-3054. No meio da tarde a esposa deixa o marido no aeroporto Salgado Filho. Mas ele tinha a intenção de ir para São Paulo só no dia seguinte. Por isso, remarcara a passagem para a manhã do dia 18. Detalhe sutil: o empresário tinha uma namorada, profissional liberal bem-sucedida, 30 de idade, moradora no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre.

E foi para o apartamento dela que ele se dirigiu, de táxi, logo após ter sido deixado no aeroporto pela esposa. Assim, apesar da tarde hibernal, chegou ao Moinhos ainda com dia claro. Beijos e abraços iniciais, os amantes conversaram, degustaram queijos e vinhos etc. A noite seria prazerosamente longa. Como a tevê, o rádio e os celulares estavam desligados, só havia conveniente som ambiente, proporcionado pela sucessão de músicas no (moderno, à época) aparelho de CDs.

Início da noite, o Brasil recebe a notícia chocante: ao aterrissar em Congonhas, às 18h48m50s, o Airbus A-320 da TAM atravessara a pista molhada - e todos sabem qual foi o desfecho.

Alheios, em seu “ninho de amor” no Moinhos, o empresário e a namorada acordaram cedo no dia seguinte e tomaram o café da manhã no dia 18. Não leram jornais, não escutaram rádio e nem ligaram a tevê. Ele pegaria o avião para São Paulo às 9h30min. Sentiu uma certa consternação no aeroporto, mas não se flagrou.

A moça o levara para o aeroporto – mais um vez, ouvindo apenas música produzida pelos CDs. Tal estado de alienação do mundo não é surpreendente: os únicos grupos que jamais deixam de acompanhar as notícias via rádio, tevê e jornal são os profissionais da comunicação, os intelectuais e os assessores políticos. A maioria das pessoas, porém, vive encapsulada em seu mundo de interesses particulares, vez por outra dado uma espiada nos assuntos públicos.

Após se despedir da moça, o empresário reassumiu o papel de marido atencioso. Fez o que prometera à sua mulher no dia anterior: ligar “de São Paulo” na terça-feira pela manhã.  Do outro lado da linha, ela estava aos prantos. Quando se refez da emoção, a esposa perguntou se o marido trocara de voo. Foi, então, que ele deu a resposta serena, mas enfática, que o incriminou de forma inapelável: “Não troquei. O voo foi tranquilo. Cheguei, jantei e dormi bem”.

Mais lágrimas do outro lado da linha.

Em seguida, o empresário ficou sabendo de todo o sofrimento vivido por sua família na noite anterior, diante da certeza de sua morte. A mulher acabou pedindo separação do marido. Há quem tivesse encarado com bom humor o desfecho, sugerindo ao empresário que apresentasse a namorada como o “anjo do voo JJ-3054”, que o livrara  da morte.

Durante uma semana, o homem foi impedido pela mulher de entrar em casa para pegar suas roupas. Em seguida, ele foi morar num flat. Alguns meses depois, o empresário e sua esposa separaram-se consensualmente numa das Varas de Família de Porto Alegre.

O empresário e a namorada – que fora, afinal, “o anjo do voo JJ-3054” – mantiveram o relacionamento, então às claras, por mais alguns meses. Quando o idílio esfriou totalmente, ele mudou-se para outra cidade; a ex-namorada incrementou sua carreira profissional em Porto Alegre. A ex-cônjuge refez-se. É vida que segue.

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(Sintetizado a partir de um dos capítulos do livro “Moinhos de Vento - História de um bairro de Porto Alegre”, escrito pelo jornalista Carlos Augusto Bissón – Editora da Cidade, 2008).


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