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Porto Alegre, sexta-feira, 30 de julho de 2021.
(Próxima edição: terça-feira, 3).
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Sentido deturpado



Arte EV sobre imagem Google

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Entre as muitas palavras e expressões usadas com frequência em sentido que não lhes corresponde, abordam-se quatro nesta edição. Apesar de todas estarem à beira da consagração, elas devem ser evitadas:

1. Através de. Esta expressão traz em seu bojo o sentido de atravessar: Seu olhar através da janela (refere-se a um olhar que atravessa a janela). A água que passa através dos canos (que atravessa os canos de fora a fora). Uma viagem através do oceano (que atravessa o oceano). Uma viagem através da Idade Média (que atravessa a Idade Média). Em todos esses exemplos, portanto, a expressão está usada corretamente.
Usos equivocados: João, através de seu advogado, propõe ação, contesta, recorre, etc. (João não atravessa o advogado). Ele recorreu através de uma ação que pleiteia a indenização por danos morais (o recurso não atravessa a indenização). A autoridade se manifestou através das redes sociais (a autoridade não atravessa as redes sociais).
As opções mais comuns para fugir desse uso indevido são “por”, “por meio de”, “por intermédio de”: João, por intermédio de seu advogado, propõe, contesta, recorre. Ele recorreu por meio de uma ação... A Autoridade se manifestou pelas redes sociais.

2. Comum acordo. A todo momento se ouve e se lê esta expressão, inclusive no meio forense, apesar de ela ser sempre redundante. Ou será que existe acordo que não seja em comum? Em que não haja comunhão de vontades?
Alguns exemplos: As partes chegaram a um comum acordo. Empregados e empregadores entraram em comum acordo. A direção e os servidores celebraram um comum acordo. De comum acordo, o impasse foi resolvido. Mais do que nunca, o leitor não tem tempo a perder, implorando por economia na linguagem, razão por que as redundâncias são abominadas. Estamos de acordo?

3. Correr atrás do prejuízo. Convenhamos que é estranho alguém deixar de correr atrás do lucro, da vantagem, para fazê-lo em busca do prejuízo, do dano. No entanto, é comum ouvirmos, em especial na linguagem esportiva, que o time corre atrás do prejuízo ao levar um gol, uma cesta, ao perder uma parte da competição. Ou será que está querendo um prejuízo ainda maior, quer levar mais gol? O certo é que ninguém, de sã consciência, corre atrás do prejuízo, e sim do lucro, da vantagem.

4. Concessão de desconto. Ainda na seara do futebol, o juiz costuma acrescentar alguns minutos após o transcurso do tempo regulamentar, com o objetivo de compensar certas interrupções no andamento do jogo. Antes mesmo de isso acontecer, afirmam que o juiz concederá descontos, como se determinasse o final da partida antes do tempo regulamentar. É, portanto, uma afirmação contraditória que faz lembrar outra de tempos atrás, hoje felizmente abolida da linguagem futebolística, que dizia o goleiro ter atacado muito, quando, na verdade, tinha defendido muito.

Esses exemplos servem, sobretudo, para lembrar que a permanente atenção ao significado é uma exigência vital para quem escreve.


A PALAVRA DO LEITOR

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