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Espaço Vital, sexta-feira 15.10.
(Próxima edição: terça-feira, 19)
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A prisão esportiva



Charge de Ed Carlos Santana – Humor Político

Imagem da Matéria

Poucos são os sortudos que, nos tempos atuais, nunca foram assaltados ou sofreram algum tipo de violência.

A regra é na vida ter pelo menos um episódio de furto ou roubo. Muitas vezes o combo é completo, iniciando com um “perdeu, perdeu”, arma na cabeça, menores envolvidos e nível de drogas no corpo do indivíduo. Caso o meliante se submetesse a exame, o resultado seria: “Havia até um pouco de sangue nas drogas”...

Depois o desfecho de sempre: a policia persegue, prende e... logo depois os anjos são soltos, ficando livres para continuar exercendo seu árduo trabalho.

É a chamada PRISÃO ESPORTIVA. Igual à pesca. A polícia prende, a imprensa fotografa, e o Judiciário solta.

Sabemos que o juiz solta por que a lei manda. Mas percorra - a leitora, e/ou o leitor - todos os ordenamentos jurídicos de outras sociedades e verifique(m): onde, além do Brasil, criminosos condenados por crimes gravíssimos em primeira instância são postos a seguir em liberdade? Ou constatem onde os assassinos, depois de alguns poucos anos,  voltam às ruas...

A impunidade não é culpa do Judiciário, que deveria apenas aplicar a lei, embora muitos juízes por ideologia ampliem a possibilidade de impunidade. Mas, pune-se mal e seletivamente - e absolve-se muito.

O criminoso do ano, Lázaro, que foi perseguido por 300 policiais, helicópteros, visão noturna, satélite (mas quem entregou ele foi a sogra), originou a maior piada jurídica dos últimos tempos, ao ser defendido pela Defensoria Pública do Distrito Federal.

Tal órgão enviou à Vara de Execuções Penais um pedido de garantia da integridade do assassino. O documento solicitava que, caso ele fosse capturado, tivesse proteção “em face de ataques midiáticos e dos pedidos de entrevistas exclusivas ou outro tipo de promoção que o exponha ainda mais”.

Mas não é só isso: a Defensoria pediu também a garantia da “proteção da integridade física e psíquica do assistido”. Só pode ser piada, e de péssimo gosto.

No entanto este anjo não será mais defendido, libertado ou fugirá. Nossos bravos policiais (que não recebem salários dignos e muito menos penduricalhos para ficarem sentados em salas refrigeradas, escolhendo correntes de entendimento) liquidaram a fatura.

Uma pena que a Defensoria, ou os arautos dos direitos humanos (ou dos "manos"), raramente atuem tão veementemente na defesa das vítimas. Como as que sucumbiram nas mãos desse psicopata.

O medo torna a população raivosa e com sede de vingança. Se a Justiça (como instituição) não cumprir seu papel, cada vez veremos mais pessoas se juntando e fazendo “justiça” com as próprias mãos, o que é preocupante.

Por isso a morte de um bandido é recebida com comemoração e sentida como alívio e sensação de reestabelecimento da ordem. Maior prova que a Justiça fracassou é que preferimos a morte do bandido, a sua prisão, onde em tese, deveria pagar por seus crimes. O preso é um peso que a sociedade se obriga a carregar.

Michel Foucault mostrou na obra Vigiar e Punir por que a justiça deixou de aplicar torturas mortais e passou a buscar a "correção" dos criminosos. Mas por insegurança estamos no caminho de volta ao tempo da aplicação dos suplícios.

A segurança é uma das necessidades mais fundamentais, vindo logo acima do nível mais básico de necessidades fisiológicas. Precisamos manter, no mínimo, uma ilusão de ordem e estabilidade. Quando essa ilusão é ameaçada por algo ou alguém, buscamos eliminar o perigo.

Não basta só vigiar e punir, precisamos da consumação da vingança dos “bons” sobre os “maus”.

Estamos todos em guerra, lutando uns contra os outros, enquanto nossos verdadeiros inimigos estão sentados no topo da pirâmide social, rindo e assistindo de camarote, enquanto o circo pega fogo...


A PALAVRA DO LEITOR

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