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Porto Alegre, sexta-feira, 30 de julho de 2021.
(Próxima edição: terça-feira, 3).

Excelências, celulares gravando!



MEMÓRIA ESPAÇO VITAL

Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Publicação original em 08.07.19

Os dez advogados da banca estavam aborrecidos com as repetidas logorreias juizíticas a que ficavam expostos na vara do Trabalho presidida pelo “Doutor Guerreiro”. Reuniram-se, então, para definir a estratégia necessária à audiência, no dia seguinte, na ação de uma ex-gerente de loja contra uma grande rede de expressão nacional. Decidiram, então, que a “Doutora Cleciana” gravaria a solenidade.

- Aceito a missão, e enfrento os ônus – disse a corajosa advogada.

Iniciado o ato jurisdicional, a reclamante passa a depor, e logo fica sujeita a escutar expressões típicas ao bullying, como esta: “Na lei, existe litigância de má-fé, com multa que reverte para a outra parte. E perdendo o benefício da justiça gratuita, a senhora vai pagar as custas do processo”.

E por aí se foi o magistrado.

Em cima da mesa, a advogada colocara o seu moderno celular - visível, mas sem ostentação. Na tela, a luzinha azul confirmava: “recording”.

A pesada audiência termina meia-hora depois, e a reclamante chorosa quase desaba nos corredores: “Nunca na minha vida eu tinha sofrido, em um só momento, tamanha pressão verbal acumulada, ainda mais partindo de um magistrado”.

No escritório, os dez advogados se reúnem para escutar a gravação e decidem fazer uma reclamação disciplinar à corregedoria da corte.

O petitório lembra que “o exercício da magistratura exige conduta que se norteia por imparcialidade, conhecimento, cortesia, transparência, dignidade, honra e decoro”.

Junto é remetida uma cópia sonora do embrulho verbal.

Aberta a representação disciplinar, o “Doutor Guerreiro”, se defende: “A gravação da audiência foi realizada de forma clandestina já que, embora autorizada pelo CPC, é dever das partes, por lealdade, cooperação e boa-fé comunicarem a sua realização, o que não foi feito pela reclamante”.

Corporativo, o corregedor arquiva a reclamação: “Foi apenas uma situação nunca desejada, mas passível de ocorrer no âmago das salas de audiência, sem que se possa tipificá-la como ausência de urbanidade, adjetivo este de caráter subjetivo”.

Nada a punir. E ficou assim mesmo...

Entrementes, o “Doutor Guerreiro”, se deu por impedido de continuar jurisdicionando a ação trabalhista, à qual – por sinal – foi atribuído coincidente e corporativo segredo de justiça. (Dane-se o interesse público!).

Enquanto outros advogados disputavam cópias da gravação e da corporativa decisão correicional, o provecto Doutor Bento de Ozório Sant´Hellena, jurista jubilado, cumprimentou os dez advogados pela iniciativa. Por escrito, festejou-lhes “a coragem nesse primeiro passo de um futuro movimento repetitivo para definitivamente brecar rompantes de juizite”.


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