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Porto Alegre, sexta-feira, 18 de junho de 2021.
(Próxima edição: terça-feira, 22).
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A ministra Rosa, o personagem de Cervantes e o Colorado



Imagem Pintere/PNG Tree

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Deparei-me com a noticiada existência de duas ações trabalhistas em face da cidadã Rosa Weber e que decorreriam da contratação de uma cuidadora para a sua mãe.

Ao iniciar a vida como advogado trabalhista conheci Rosa Weber, então presidente de Junta de Conciliação e Julgamento em Porto Alegre. Juíza cortês, estudiosa, discreta e especialmente dedicada à atividade jurisdicional.

Na caminhada da existência cruzamos as nossas trajetórias. Fui presidente da Associação dos Magistrados do Trabalho da 4ª Região – Amatra IV - quando ela, já desembargadora, presidia o Tribunal Regional. A sua austeridade na administração consolidou ainda mais o meu respeito à coisa pública.

Depois, com o apoio expressivo da advocacia gaúcha foi nomeada ministra do TST, herdando milhares de processos que aguardavam decisão. Lembro que quando estive na direção da Associação dos Magistrados Brasileiros – AMB – hospedávamos no mesmo hotel em Brasília. Diariamente nós, os integrantes da diretoria íamos jantar, deixando o hotel em torno das 21 horas. Não raro, eu encontrava Rosa Weber, chegando do TST com uma pilha de autos de processos: “Roberto, trouxe o meu tema de casa” – dizia-me.

O Carlos Papaleo, resistente a solenidades e festejos, combinou que após a posse solene no TST faríamos uma visita a Rosa Maria, não descuidando antes de enviar flores e uma tela do Dom Quixote e do Sancho Pança. 

A tela foi colocada em lugar de destaque no gabinete, ao lado das bandeiras do Rio Grande do Sul e a do Sport Club Internacional. Dentre outras qualidades a ministra Rosa é “colorada praticante”. Acompanha e torce pelo Inter deixando claro a todos que ele está em seu coração. Durante a conversa ela nos segredou: “Olho para essas duas figuras e reflito quem é quem, sem chegar a uma conclusão”.

Tempos depois da partida definitiva do querido amigo Papaleo, estive no gabinete da ministra e, repetida a indagação, respondi: “Somos, cada um a síntese das duas figuras criadas por Cervantes.”

São 40 anos de Justiça do Trabalho seja como advogado, seja como juiz e aprendi que as piores relações são as de natureza doméstica, especialmente quando cercados pelas circunstâncias da idade e da moléstia dos nossos “velhos”. A minha mãe, figura ímpar, quando enfrentou um câncer contou - por decisão da minha irmã, à época também juíza do Trabalho - com auxiliares de enfermagem que se revezavam acompanhando-a.

Em uma noite, no horário em que regularmente ia visitá-la, percebi que estava excessivamente sonolenta; a cuidadora por sua conta incluíra indevidamente um Lexotan no rol dos medicamentos. Uma outra cuidadora, chata em demasia, ligou para a minha irmã pedindo socorro: “Doutora, ela saiu porta afora, me deixou em casa e chaveou a porta”.

É uma relação difícil, geralmente cercada de promessas de paz e segurança, que podem virar um inferno.

No velório do querido Dr. Mathias Nagelstein, depois de uma longa enfermidade, me segredou a viúva: “Roberto, o Mathias descansou, mas finalmente me livrarei daquele bando de atendentes de quem fomos reféns ao longo de anos, apesar de  saber que agora virão as reclamatórias”. Registro, por pertinente, que represento a viúva na Justiça do Trabalho em ações de cuidadoras e auxiliares de enfermagem.

O direito subjetivo de ação permite que qualquer um de nós possa figurar na condição de réu e em qualquer tipo de demanda. Geralmente os valores são lotéricos. Especialmente quando o autor suspeita do incômodo que pode acarretar à vida do réu.

Minha admiração pela Dra. Rosa é ainda maior quando me dou conta da sua conduta destoante daquela existente na suprema corte brasileira: não dá entrevistas, não assume comportamento midiático e fala apenas nos autos. Ela é diferente de alguns ministros que agem mais à semelhança de vedetes do que de juízes.

Por outro lado, jamais partiria da doutora Rosa qualquer iniciativa de obstaculizar o acesso - de quem quer que seja - aos autos dos processos relativos às ações que tramitam na JT gaúcha. Imagino que a iniciativa deve ter partido de um servidor e/ou magistrado voluntarioso(s). Há duas ações em curso e a verdade acerca da relação jurídica surgirá.

Essa situação me remeteu àquilo que, certa feita, testemunhei quando o presidente do STF era Mauricio Corrêa (que ocupou a vaga deixada por Paulo Brossard), sendo proprietário de um sítio de lazer nos arredores de Brasília. Corrêa contava com empregados que prestavam serviços de zeladoria e de manutenção.

Veio a bomba noticiada nacionalmente: mantinha na propriedade empregados em situação análoga à de escravidão. A bomba explodiu, ele sofreu o desgaste de figurar nas manchetes dos jornais e nada foi comprovado. Quem o conheceu – um brilhante advogado – sabe que jamais seria capaz de protagonizar algo sequer parecido.                         

          Sonhar o sonho impossível,

          Sofrer a angústia implacável,

          Pisar onde os bravos não ousam,

          Reparar o mal irreparável,

          Amar um amor casto à distância,

          Enfrentar o inimigo invencível,

          Tentar quando as forças se esvaem,

          Alcançar a estrela intangível:

          Essa é a minha busca.

                    (Dom Quixote)


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