Ir para o conteúdo principal

Porto Alegre,sexta-feira, 5 de março de 2021.
(Próxima edição: terça-feira, 9).

Osvaldo Peruffo, o mestre do Direito, o cidadão respeitoso, o homem inflexível com a corrupção



Foto: Album de Família

Imagem da Matéria

Por Sérgio Souza Araújo, cidadão brasileiro aposentado, ex-escrivão da 7ª Vara Cível de Porto Alegre.

Sergiosouzaraujo@gmail.com

Aos 89 anos de idade, faleceu na última terça-feira (8) - data em que se comemora o Dia da Justiça - o advogado e desembargador aposentado Dr. Osvaldo Peruffo. É uma grande perda para todos, familiares, amigos, ex-colegas e lidadores do Direito que tiveram a honra de usufruir da companhia de tão especial ser humano, seja  no centro familiar, seja pelo lado estritamente profissional. E afirmo, o sentimento de desolação é imenso porque, unânime.  De outra banda, estou pasmado considerando que - quando escrevo estas linhas - às 14h15min do dia 10/12, não li nenhuma simples frase que seja, na internet, do Tribunal de Justiça acerca do óbito de um desembargador aposentado que relevantes serviços prestou à Justiça gaúcha. Que triste descaso!

Cumpre consignar que em 2 de junho deste ano, tive a grata satisfação de ver, aqui no Espaço Vital,  publicado artigo que escrevi sobre o Dr. Peruffo - sob o título “O magistrado gaúcho que cumpria a verdadeira liturgia do cargo”. Na oportunidade,  teci considerações acerca  da atuação do então Juiz de Direito na 7ª Vara Cível de Porto Alegre, cuja titularidade cartorária esteve sob minha responsabilidade.

A carreira do Dr. Peruffo na magistratura do RS foi repleta de êxito, desde a 1ª entrância na pequena comarca de Tenente Portela.  Passou por outras comarcas, sempre demonstrando competência, trabalho, organização e comprometimento. Por mérito próprio, galgou todos os degraus culminando com a promoção ao cargo máximo do Poder Judiciário. E na Corte Estadual não decepcionou; pelo contrário, exerceu a jurisdição com extrema fidalguia. E como desembargador do Tribunal de Justiça veio a jubilar-se.

Encerrou-se um ciclo mas em seguida outro teve início. Inscreveu-se na OAB-RS, sob nº 2.920, passando a exercer a advocacia. E tal como dantes, atuou com muito esmero honrando os mandatos que lhe foram outorgados.

Pois bem, é  sobre o outro lado do balcão que vou aqui tratar. E, por entender importantes gostaria de expressar algumas passagens que tive o prazer de presenciar no âmbito do cartório com envolvimento direto do Dr. Peruffo.

Em virtude de seu notório saber jurídico, sua impecável ética, seu agir com prudência e firmeza, sua inflexibilidade com a corrupção, era  o Dr. Peruffo  muito solicitado para patrocinar demandas, seja atuando como procurador da parte autora, seja advogando para o réu. E na 7ª Vara Cível, o número de processos de seu interesse era considerável.

Pessoalmente, ele comparecia em cartório para acompanhar os feitos. Ficava no balcão esperando o momento de ser atendido e nunca exigiu nenhum privilégio. E quando eu lhe dizia “Doutor Peruffo, passe aqui”, então me respondia: “Obrigado, Araújo, mas prefiro esperar a  minha vez”.

Ele trazia sempre a informação atualizada do processo que pretendia examinar e quando lhe eram franqueados os autos agradecia e solicitava permissão para utilizar a "mesa grande" destinada aos advogados. Lá, examinava as peças, os documentos,  fazia anotações, solicitava a extração de cópias, etc. Ao final, ao devolver o processo em mãos de quem lhe entregara, seguia-se um polido "muito obrigado".

Quando comparecia às audiências, o Doutor Peruffo fazia questão de aguardar  o pregão sentado nos desconfortáveis bancos disponibilizados no saguão do andar. Eu o avistava e o convidava para aguardar nos recintos do cartório e ele educadamente agradecia, mas de imediato declinava.

Cumpre consignar, que meus chamamentos para que ele passasse para o interior do cartório nunca tiveram o condão de burlar qualquer regra, mas simplesmente ser recíproco com quem tinha por hábito a polidez.

Em virtude da excelência de seus trabalhos, a fama do Dr. Peruffo propagou-se. Cotidianamente compareciam advogados - muitos ainda incipientes - para solicitar cópias das petições de processos em que ele atuava, seja de iniciais, contestações, réplicas, etc. Eu lhes indagava o motivo do interesse naqueles feitos, e eles respondiam-me sem qualquer embaraço que  era para fazer igual em  processos que pretendiam atuar. Como os processos eram públicos, não havia como negar-lhes o acesso.

Ainda,   lembro-me, que na época que o Dr. Peruffo exercia a jurisdição na 7ª Vara Cível. Ali também havia forte afluxo em cartório de jovens candidatos a certame público para o cargo de juiz de direito, com o intuito de obterem cópias de sentenças prolatadas por ele, com o objetivo único de  estudá-las para os concursos. Hoje, indago-me: quantos daqueles jovens  não lograram aprovação em concurso com  a ajuda do mestre Peruffo e hoje estão em plena jurisdição por este Rio Grande afora?

Algo que nunca testemunhei por parte do Dr. Peruffo,  foi tentar tirar proveito da sua condição de ex-magistrado para levar alguma vantagem. Jamais utilizou-se - popularmente falando em "carteiraço" - de oportunidade para conseguir algo fora dos parâmetros legais, ou, ainda, humilhar alguém para seu próprio deleite.

Efetivamente,  o respeito, a consideração e a simplicidade são qualidades intrínsecas da pessoa de bom caráter. O Dr. Peruffo, realmente, calçava as sandálias da humildade. Que descanse em paz esse probo homem!


Leia na base de dados do Espaço Vital: O magistrado gaúcho que cumpria a verdadeira liturgia do cargo


A PALAVRA DO LEITOR

Se você quiser esclarecer, comentar, detalhar, solicitar correção e/ou acréscimo, etc. sobre alguma publicação feita pelo Espaço Vital, envie sua manifestação.

Notícias Relacionadas

Agência CNJ

Movimento em defesa do júri

 

Movimento em defesa do júri

“No Brasil, o júri está previsto em cláusula pétrea da Constituição Federal. Ou seja, ninguém discute (de forma séria) a sua extinção, mas muitos querem modificá-lo. Atualmente, tramitam 12 projetos no Congresso que visam alterar o procedimento”. Artigo do advogado Jader Marques.

Wikipedia

A tapera Rio Grande do Sul

 

A tapera Rio Grande do Sul

“Bradar que ele é flagrantemente inconstitucional não é o suficiente. É preciso que a sociedade se manifeste contra a aprovação do PLC nº 12/2021, ora tramitando na Assembleia Legislativa do RS”. Artigo de João Pedro Casarotto, auditor.