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Porto Alegre (RS), terça-feira, 11 de agosto de 2020. Dia do Advogado.

A instigante cruz de São Pedro



Imagens: Freepik - Montagem: Gerson Kauer

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Era uma ação previdenciária, sendo necessária - para a decisão de interdição, ou não - uma inspeção judicial numa casa simples, mas muito limpa, em meio ao mato, próximo à barranca de um rio. Ao entrarem no pátio da morada, o magistrado e os demais integrantes da caravana judicial logo visualizaram um ancião, em pé, de calça e camisa verdes. O idoso se aproximou e, em posição de sentido, bateu continência e indagou: “Vieram me alistar na guerra civil ou na mundial?”

Querendo descontrair, o juiz perguntou: “Para qual guerra o senhor deseja ir?”

O idoso retrucou: “Já servi na primeira e na segunda. Agora quero a terceira guerra”.

Ao lado da residência, uma enorme cruz chamava a atenção. O magistrado indagou sobre aquilo.

A resposta foi rápida:

- Coronel, a cruz foi obra de São Pedro. Todas as pessoas que morrem na região, para subirem ao céu, passam por aqui quando vira a meia-noite. É um barulho danado: uns choram, outros gritam. O vento balança toda a mata, e São Pedro vai mandando uns subir para o céu, e outros descer para o inferno.

Concluído o interrogatório, não havia dúvidas da necessidade de interdição. Quando se preparavam para a retirada, todos ainda escutaram uma provocação do interditando: “Estão indo embora por que ficaram com medo de passar a meia-noite aqui?...

No dia seguinte, o juiz ditou a sentença: “Ficou clara a perturbação psíquica do interditando, caracterizada pelo desenvolvimento de delírio com temática predominantemente persecutória, cuja construção, embora lógica, se baseia em premissas falsas, e em que estão ausentes as alucinações e a evolução para um estado de demência”.

E determinou a interdição, além da concessão da pensão por invalidez, a ser mensalmente movimentada pelo curador - este obrigado à prestação de contas trimestral.

 

(Sintetizado e adaptado a partir de relato do juiz Onaldo Rocha de Queiroga, publicado pelo CNJ em “A Justiça Além dos Autos”).


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