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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 07 de agosto de 2020.
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As sutilezas do hífen



O artigo “O princípio da boa-fé no acesso por concurso público”, dos advogados gaúchos Rogério Viola Coelho e Jefferson Alves, publicado no Espaço Vital da última terça-feira (21) me fez lembrar uma das mais frequentes dúvidas que me é apresentada: por que o hífen em “boa-fé”?

Vamos lembrar o princípio que orienta o emprego do hífen em palavras compostas: usa-se o hífen quando ocorre mudança de significado em um ou mais elementos do composto, ou ainda quando o composto como um todo resulta em novo significado. Muitas vezes, é difícil detectar essa mudança no significado, seja pela sutileza de sua mudança, seja por não atentarmos a ela.

Em “boa-fé” e seu oponente “má-fé”, a diferença de significado a ser marcada pelo hífen não está nos adjetivos “boa” e “má”, mas no substantivo “fé”, porque esta palavra é usada com desvio de significado: em vez de fazer alusão ao seu sentido primário, que é de crença, nas expressões “boa-fé” e “má-fé”, ela está sendo usada mais com o sentido de intenção do que de fé.

Quando se diz que alguém agiu de boa-fé, se quer dizer que ele teve boas intenções. Apenas indo à profundidade contextual da expressão é que se pode perceber um sentido que extrapola a intenção e se alcança alguma questão de fé; em termos de significado, a fé extrapola a intenção, razão por que atribui à expressão maior vigor de significado, fazendo com que se consagrassem as formas “boa-fé” e “má-fé”.

Outro exemplo interessante é o de “decreto-lei”: decreto e lei são dois tipos diferentes de atos normativos; juntando-se os dois, obtemos um terceiro tipo, pois decreto-lei não é decreto nem lei; portanto, as duas palavras juntas criaram um terceiro significado, o que justifica o emprego do hífen.

Curiosa é também a expressão “fim de semana”. Para se decidir pelo uso ou não dos hifens, discutia-se o real sentido de “fim de semana”. Sabe-se que é referência ao período de descanso. Modernamente, esse descanso começa e termina onde? Inclui o sábado? Como nada estava claro, reinava a dúvida. Só não se discute mais porque o Acordo Ortográfico de 2008 determinou a eliminação do hífen nos compostos em que há elemento de ligação no meio (no caso a preposição “de”).

Outros exemplos dessa definição do Acordo Ortográfico: mão de obra, pé de moleque, pão de ló. É importante lembrar que os hifens dos nomes de plantas e animais foram preservados: cana-de-açúcar, erva-de-passarinho, ratão-do-banhado, gato-do-mato.

Portanto, o emprego do hífen em palavras compostas é questão de inteligência, e como tal exige permanente e acurada atenção ao significado. Nas palavras prefixadas, ou seja, aquelas que iniciam com prefixo, não se leva em conta o significado, mas apenas a forma da grafia.


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Diz a regra: “Usa-se hífen em combinações substantivas cujo segundo elemento é indicativo de tipo, forma ou finalidade”. Trocando em miúdos: sempre que o composto é formado por dois substantivos e o segundo informar sobre tipo, forma ou finalidade em relação ao primeiro, usa-se hífen. Bingo!