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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 07 de agosto de 2020.
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O mal das redundâncias



Charge: Alpino - Edição: Equipe EV

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As redundâncias se opõem às exigências de objetividade e concisão dos textos atuais, uma imposição do moderno ritmo de vida, que exige pressa em tudo o que se faz, pois não há tempo a perder. Apesar disso, nunca como hoje se viram tantas redundâncias nas comunicações.

Começo apresentando alguns casos recentes:

- “O Ministro decidiu que o condenado vai cumprir prisão domiciliar em casa”: onde se poderia dar a prisão domiciliar senão em casa? Esta casa pode ser o domicílio provisório, como é o caso dos irmãos Assis, no Paraguai.

- “A pandemia está presente no mundo inteiro”: não seria pandemia se não tivesse alcançado os cinco continentes; a OMS só a declarou assim após ela atingir todo o mundo; aliás, a formação da palavra denuncia isso (pan: totalidade; demos: povo = totalidade dos povos).

- “O presidente afirmou dizendo não concordar”: quem afirma está dizendo, razão por que é preciso escolher um dos dois verbos.

- “Há diversas temperaturas negativas abaixo de zero no Estado”: só se consideram negativas as temperaturas abaixo de zero; acima de zero, todas são positivas.

Seguem-se algumas redundâncias antigas, algumas quase consagradas:

- “Elo de ligação”: não se conhece elo que não seja de ligação; portanto, basta dizer “elo”.

- “Pronto atendimento rápido”: os estabelecimentos de saúde de emergência que garantem ser tão rápidos deveriam levar em conta não existir a possibilidade de atendimento mais rápido que o pronto, ou seja, instantâneo.

- “A viúva do falecido”: se é viúva, só pode ser do falecido.

- “É um caco feio”: ser caco ou ser feio dá na mesma, pois as duas palavras têm igual sentido (“caco”, no grego, significa feio).

- “Loção de barba para homens”: por não existir loção de barba para mulheres, basta informar que se trata de loção de barba, o que é ignorado em diversos rótulos do produto, que denunciam a existência de similar para elas.

- “A caligrafia está correta”: o radical grego “cali” carrega o significado de qualidade, de correção; deve-se, portanto, informar que a grafia está correta.

A lista das redundâncias, também conhecidas como pleonasmos, é imensa e, pior, está em crescimento, na contramão das exigências dos textos modernos. Uma advertência: só está livre das redundâncias aquele que não escreve nem fala. Qual a principal razão para a tão alta frequência desse vício de linguagem? Entendo que o motivo principal está na falta de atenção ao significado das palavras. Quem escreve precisa estar sempre atento ao significado que está embutido nas palavras e nas relações que se estabelecem entre elas. Aliás, a razão de ser de tudo o que se escreve é o significado. Por isso recomendo que, após a elaboração do texto, seu autor o releia com atenção redobrada ao sentido do que pretendia dizer. 

Importante: nem tudo o que é redundante é vicioso; levando-se em conta o contexto, o pleonasmo pode ser virtuoso: “Sonho os meus sonhos”, ou quando usado intencionalmente como elemento de reforço, como numa audiência em que se pergunta à testemunha se ela viu, e ela responde: “Sim, doutor, vi com meus próprios olhos”. Portanto, a diferença entre o pleonasmo vicioso e o virtuoso é tênue quando se leva em conta o contexto.

 


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