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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 07 de agosto de 2020.

Páginas da vida - O “prefeito de São Paulo”...



Imagens: Freepik - Montagem: Gerson Kauer

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Conta um desembargador que quando era juiz de primeira instância, várias vezes interrogara interditandos, tendo que se deslocar até as suas residências, frequentemente na zona rural. Na comitiva iam também o promotor, um defensor nomeado e o escrivão, acompanhados de uma máquina de datilografia. Essas empreitadas eram um verdadeiro rali pelas estradas empoeiradas da psiquiatria: interrogatórios de oligofrênicos, epilépticos, paranoicos, psicopatas, etc.

Dentre esses casos, num sítio havia um homem, 40 de idade, que estava trancado numa espécie de jaula. Era violento. Sua mãe logo explicou:

- Doutor, ele de repente foi ficando mal da cabeça, já vive nesse local há quase um ano. Solto, é um perigo, quebra tudo, é agressivo, e pode fazer mal até a mim.

Todos se aproximaram com cautela. O magistrado perguntou ao pobre homem:

– Você mora aqui? Trabalha aqui?

– Eu sou o Doutor José, prefeito de São Paulo. Cheguei de avião agora, de madrugada. Vim só para atender o senhor. Seja rápido, não sou de muita conversa, pois preciso voltar para a prefeitura – respondeu, com vocabulário correto, mas forma áspera.

Foram feitas outras perguntas e meia hora depois os visitantes partiram. Nas viagens de volta, os quatro usualmente discorriam sobre essas afecções mentais crônicas, de etiologia desconhecida, caracterizadas por uma dissociação entre o pensamento e a ação, e que provocam a perda do contato com a realidade e a desagregação da personalidade.

Três ou quatro dias após o retorno à comarca, saiu a sentença de interdição. Foi determinado ao Estado “o imediato recolhimento do homem a um lugar digno”, etc. Os autos ainda estavam no gabinete, quando o juiz foi informado pelo escrivão:

- Doutor, a mãe acabou de trazer a certidão de óbito do Doutor José, prefeito de São Paulo. Ele morreu de infarto, anteontem.

O próprio servidor resumiu:

- Fez-se a melhor justiça dos céus!


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