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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 07 de agosto de 2020.
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A formação do significado



Foto: Visual Hunt - Arte EV

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Antes de iniciarmos a elaboração de um texto, criamos um cenário, um contexto adequado ao que queremos expressar; a escolha das palavras e o seu arranjo vêm depois. O mesmo faz o pintor, que, antes de lançar mão dos pincéis molhados nas tintas, elabora mentalmente o quadro a ser produzido. Aliás, tenho a impressão de que todo processo criativo, em qualquer manifestação cultural, começa assim.

Voltando ao texto, é preciso saber que o sentido primário está nas palavras que o constituem, mas a riqueza maior do significado se encontra na relação que se estabelece entre elas e no contexto em que são inseridas. Com isso não se quer retirar o valor das palavras, até porque sem elas não há texto. O que se quer enfatizar é a importância de se estabelecer uma relação harmoniosa e produtiva entre elas. Talvez tenhamos aí perfeito exemplo para o velho ditado segundo o qual “a união faz a força”. 

Exemplo: Dizer que alguém é um “grande jurista” é diferente de afirmar que ele é um “jurista grande”. As palavras são as mesmas, mas o significado é muito diferente. Como se explica isso? Bastou alterar a ordem das palavras, ou seja, mexer na relação entre elas. No entanto, isso não seria suficiente se não fosse o contexto, se o leitor ou ouvinte não entendesse assim; é o que se chama de senso comum: autor e leitor percebem o mesmo significado. É exatamente aí, na exploração do contexto, que reside o poder maior da comunicação. O sentido primário das palavras é pobre; o que é rico são as relações e o contexto. 

Vejamos mais alguns casos em que a armação da frase explora o contexto.

 Quando procurado por um assassino confesso, uma das primeiras afirmações convictas do advogado pode ser esta: “Não, você nunca matou ninguém”. É certo que a frase não pode ser interpretada ao pé da letra; é apenas um pedido veemente para que ele negue a autoria do crime. Explora-se, portanto, o contexto, mesmo que de forma sutil.

Diante da afirmação de um pai: “Meu filho é advogado, mas é correto”, todos entenderão que o pai é preconceituoso, dizendo que os advogados não são corretos, mesmo que na frase não haja qualquer palavra dizendo isso. É o contexto o responsável pelo injusto dano causado a esses nobres operadores do Direito. Poderíamos enquadrar aqui o conceito segundo o qual comunicação não é o que se pensa dizer, nem mesmo o que se diz, mas, sim, o que é entendido.

Em tempos da pandemia imposta pela Covid-19, alguém poderia dizer: “Está ruim, mas está bom”. Como assim? Se está ruim, não pode estar bom. Pode, sim. Quer o autor da frase dizer que o vírus está causando imenso mal, mas que, levando em conta o contexto, está bom por ele estar vivo.  

Agora um exemplo de mau uso do contexto: os boletins médicos de pacientes em geral informam que “o quadro é estável”. Essa informação não diz aos familiares se o paciente está bem ou mal, portanto não atende aos seus anseios de informação. Pior ainda se à pergunta: “É verdade que a situação do doente piorou?”, a resposta fosse esta: “Absolutamente”. A resposta seria vazia de significado, pois “absolutamente” é apenas elemento de reforço, faltando dizer sim ou não.

São alguns dos chamados por muitos “mistérios do significado”, com que se ocupa a ciência da Sociolinguística. No dia a dia, os operadores do Direito lidam com esses mistérios. O Escreva Direito é um canal aberto para compartilhá-los. Ou será que você nunca passou por algo assim?


A PALAVRA DO LEITOR

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