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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 3 de julho de 2020.
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Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço



Foto Adoro Cinema.com - Edição EV

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PONTO UM:

A luta pela igualdade dos direitos entre homens e mulheres já conta com mais de cem anos, mostrando-se relevantes movimentos como o sufragista, na Inglaterra e em outros países democráticos, entre o final do século XIX e início do século XX. No Brasil, a conquista (formal) foi erigida à cláusula pétrea da Constituição de 1988, com o reconhecimento de igualdade entre homens e mulheres em direitos e obrigações, conforme seu art. 5º, inciso I.

Cediço, porém, que a conquista material desta igualdade ainda não foi alcançada. São muitos os índices que materializam a desigualdade, seja no âmbito da política, nos altos cargos da administração pública e das grandes empresas privadas, no setor dos programas de pós-graduação, na direção e produção cinematográfica e assim por diante. A lista é infindável.

Mas há, ainda, os/as que pensam, agem e até verbalizem que o lugar da mulher é frente ao fogão. Nada contra a mulher que escolher o fogão, mas não porque seja o seu lugar, e sim porque é sua vontade! Por isso mesmo, nos dias atuais a campanha em favor da igualdade material ganhou uma bandeira muito singular: o lugar de mulher é onde ela quiser!

PONTO DOIS: Trazendo a temática para a arte do cinema (até porque estamos vivendo um período de isolamento social), está sendo lançada uma nova série (HBO) contando a história de Phyllis Schafly, protagonizada pela maravilhosa Cate Blanchett e titulada Mrs. America.

Quem foi Phyllis Schafly? Importante ativista contra o feminismo, o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, defendendo que o lugar da mulher era em casa, cuidando do marido e dos filhos. Teve educação apurada, cursando mestrado numa faculdade de elite (Radcliffe College) e, posteriormente, doutorando-se em Direito.

Durante a guerra, trabalhou como técnica de balística em poderosa indústria de fabricação de munições. Mesmo depois de casada, sua bandeira ultraconservadora levou-a a viajar pelo país, fazendo palestras e passando a exercer destacada influência no Partido Republicano, ao qual era vinculada, ao ponto de seus telefonemas para Ronald Reagan, então Presidente, serem imediatamente atendidos. Tinha, pois, pleno acesso à Casa Branca.

Trabalhou em campanhas eleitorais, chegou a ser candidata republicana ao Congresso, não logrando ser eleita. Escreveu mais de uma dúzia de livros, entre os quais Choice not an Echo (=Uma escolha, não um eco) e encabeçou o movimento contra a chamada Emenda da Igualdade de Direitos, que pretendia constitucionalizar a igualdade de direitos entre homens e mulheres. Curioso é que se valeu desses direitos – à voz, ao espaço, à imagem de uma mulher na política e nas vias de tomada de decisões – exercendo-os na plenitude, mas para combatê-los: faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.

Lembra-me, no Brasil, de algumas mulheres que alcançaram altos cargos eletivos, por conta de sem-número de fatores favoráveis (nome de família, visibilidade na mídia, sem descartar competência, é claro), mas que, do alto de seus cargos, alardeiam: não precisei da Lei de Cota de Gênero para ser eleita. Ou seja, também no Brasil temos algumas Phyllis Schafly, o que nos leva a um outro filme, já que estamos em ambiente cinematográfico, bem conhecido: Dormindo com o inimigo.


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