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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 07 de agosto de 2020.
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A testemunha que caiu do céu



Imagem Camera Press - Edição EV

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Manhã fria e a caminhada de sempre entre o único hotel da cidade e a Junta de Conciliação e Julgamento localizada à frente da praça repleta de plátanos.

Nas calçadas homens de bombacha, boina ou chapéu, lenço no pescoço, botas e pala.

O juiz havia sido designado, não fazia muito, para atuar na pequena cidade, sede da jurisdição. Ainda despertava a curiosidade, especialmente dos advogados. A assistência era plena na sala de audiências. Era preciso “tirar a febre”.

Dando início às ditas instruções, na pilha dos autos um processo no qual um empregado rural, entre outros direitos, postulava o adicional de insalubridade, alegando o contato com graxa e óleo.

Colhido o depoimento, o autor confirma a versão que mantinha contato com graxa é óleo em decorrência da lubrificação do trator.

No transcorrer, ingressa na sala a sua única testemunha. Um homem simples, visivelmente desconfortável com a situação.

Na qualificação a testemunha declara o seu endereço que é em outro município, na vizinha cidade.

O juiz pergunta:

- Seu Carlos Henrique, o senhor é parente ou amigo íntimo do reclamante?

- Não doutor, não conheço ele. E nem sei onde mora...

- O senhor trabalhou ou trabalha na fazenda do Passo Largo?

- Não doutor, não tenho nem ideia onde ela fica e de quem é.

- Então como o senhor conheceu o reclamante?

- É muito simples doutor, eu estava abastecendo a minha camionete Pampinha no posto do Vidigal, aquele ali na rótula da BR. Enquanto o frentista abastecia, me fixei em um trator laranja que estava parado e no homem que estava engraxando a suspensão. É justamente aquele homem ali - e apontou para o reclamante.

O juiz antevendo o que estava pela frente, para, respira, passa a mão na barba e decreta:

- Bem, vamos em frente. Acho que, para o senhor, apenas mais três perguntas.

E veio a primeira, para saber se de fato a testemunha não havia conversado com o reclamante no posto. A negativa foi peremptória, reafirmando que jamais conheceu o reclamante.

Diante disso, vem a segunda pergunta: se era correto afirmar que os dois não sabiam dos respectivos endereços residenciais?

Com satisfação, a testemunha eleva o tom da voz para enfatizar que não era parente e muito menos amigo do reclamante, o que parece que finalmente havia sido compreendido pelo julgador.

Sala repleta, o juiz olha para a testemunha e resume:

- O senhor viu um homem que não conhecia, lubrificando um trator em um posto de combustível. Não falou com ele, não sabe onde ele mora e vice-versa. Se não teve qualquer contato com ele, pergunto: como chegou até aqui para prestar depoimento, em dia e horário designados?.

Antes que o depoente respondesse, o magistrado desfiou mais uma rápida interrogação:

- O senhor caiu do céu?

O homem parou, olhou vagarosa e pensativamente para os lados, para cima, para baixo. E fitando firme para o juiz, definiu a situação:

- Doutor, agora o senhor me pegou!


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