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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 05 de junho de 2020.
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Quarentena de 14 dias?



Charge do jornal A Crítica (Manaus).

Imagem da Matéria

Diversos leitores manifestaram sua contrariedade em relação ao uso da palavra quarentena.

Assim como novena deriva de nove e dezena, de dez, quarentena vem de quarenta.
Nenhuma dúvida sobre isso. Assim, quarentena refere-se a um período de quarenta dias,
originalmente o período em que viajantes provenientes de lugares com doenças contagiosas ou
epidemias ficavam isolados ou proibidos de frequentarem certos lugares, para evitar contágio.

A palavra surgiu na Europa quando o Velho Continente foi atingido pela peste bubônica,
que vitimou mais de um terço da população europeia. Convicto de que a peste vinha do mar, o
governo de Veneza, no ano de 1403, determinou que todas as embarcações ficassem isoladas
durante 40 dias, impedindo os passageiros de desembarcarem antes desse período de quarentena.

Por que 40 dias? Há dúvidas, podendo ser alusão aos 40 dias

- da Quaresma, período em que os cristãos jejuam e fazem penitência;
- que Jesus passou no deserto antes de ser tentado pelo demônio; e/ou
- do pós-parto, em que as mães recebiam cuidados especiais.

Depois a palavra passou a ser usada para as mais variadas situações, podendo referir-se,
entre outros casos, às 72 horas em que ficavam isoladas as pessoas vindas da Ásia por ocasião da
chamada “gripe do frango”, assim como aos atuais 14 dias de isolamento exigidos em relação ao
coronavírus. Enfim, a quarentena já não é mais de quarenta dias. Então, por que a terminologia
não se adaptou às novas situações?


Apesar de serem ciências, as línguas não são ciências exatas. Quem define o uso e o
significado das palavras não são os gramáticos nem os dicionaristas, seus cientistas, mas o usuário.
Este, em regra, segue a lógica, mas nem sempre. Em vez de trocar de palavra, que seria o lógico, a
palavra é que se adapta à nova realidade, estendendo seu significado. Entre muitos outros
exemplos existentes na língua portuguesa, apresento dois muito recorrentes:

- Embarcar: embarcamos em automóvel, ônibus, trem, avião, etc., quando a palavra
deriva de barca, forma original de viagens de longa distância; em vez de criar nova palavra para
definir o acesso aos novos meios de transporte que foram surgindo, o usuário preferiu continuar
embarcando.
- Acender: acendemos a luz, quando na origem acender significa apenas atear fogo, pois a
forma original de iluminar um ambiente era pelo fogo; quando inventaram a energia elétrica, em
que não se usa fogo, o usuário, em vez de criar nova palavra, seguiu acendendo.

Grafia de “coronavírus”

Leitores pedem para esclarecer a respeito da grafia de coronavírus, se é com acento e se a
inicial deve ser maiúscula ou minúscula. Como se trata de palavra plenamente incorporada à
língua portuguesa, deve ser acentuada; é substantivo comum que designa uma doença, devendo
por isso ser grafada com inicial minúscula, assim como os nomes comuns de qualquer doença.
Aliás, a palavra foi rapidamente incorporada ao léxico da língua, apesar de o Word não reconhecê-
la como tal, pois a sublinha em vermelho. Fato raro: a contaminação foi tão rápida que a ágil
tecnologia da informação ficou para trás...


A PALAVRA DO LEITOR

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