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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 05 de junho de 2020.
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Cacofonias: as cinco mais



Arte EV sobre foto Camera Press

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Formada a partir dos elementos gregos caco (feio) e foné (som), a palavra cacofonia, em tradução literal, significa som feio. A parte feio da palavra teve o sentido ampliado para estranho, ridículo, grosseiro, entre outros da redondeza. A cacofonia se forma pela junção de duas palavras, ou do final de uma palavra com o início de outra e vice-versa. A percepção da cacofonia se dá, em regra, apenas quando da oralização (foné) da frase. Pois é exatamente aí que reina o perigo: em geral não pronunciamos o que escrevemos.

Resultado: nem mesmo Camões escapou de cacofonia que remete a apreciado corte de carne em “alma minha gentil, que te partiste”. Nosso grande Machado de Assis também não quando escreveu “Disse-mo ela mesma”. O Hino Nacional brasileiro igualmente a contempla em “heroico o brado”, que na leitura vira “herói cobrado”.

Apenas para exemplificar, segue minha lista das cinco mais:

1. É um processo por cada magistrado. A solução desta cacofonia se alcança em regra com a simples eliminação de cada: É um processo por magistrado. Ficou até melhor.

2. A boa música gaúcha. Há mais de uma solução: inserir outra palavra – a boa música regional gaúcha, ou trocar gaúcha por rio-grandense – a boa música rio-grandense. Que não se invente de trocar por gaudéria, porque a emenda será pior que o soneto: a boa música gaudéria. Esta cacofonia tem muitos parentes próximos: Nunca gastes mais do que recebes. O governo confisca gado. É a única garantia que o réu pode oferecer. 

3. Nosso hino é lindo. É preciso trocar por Hino Nacional, Hino Rio-Grandense, Hino do Município, Hino do Internacional, do Grêmio... Aliás, em termos de cacofonias suínas, outra de uso frequente é “por coincidência”.

4. Amo ela. Para se livrar desta é preciso sair do galinheiro e abandonar a moela, trocando ela pelo pronome oblíquo a: Amo-a. Exatamente por sempre resultar em cacofonia é que a gramática proíbe usar o pronome pessoal ele e suas derivações (ela, eles, elas) na função de objeto direto, devendo ser trocado por o e suas derivações (a, os, as). Verifique: Venci ele (correto: Venci-o). Interroguei ela (correto: Interroguei-a). Vou entrevistar ela (correto: Vou entrevistá-la). Para obter mais exemplos, basta ouvir rádio, TV e outras mídias faladas.

5. Palavras assim jamais sairiam da boca dela. Para resolver, tem que sair dela, optando por: da moça, da advogada, da doutora... Outro exemplo que já encontrei: Na época dela era diferente.

Um desafio: Imagino que o leitor se lembre de outras cacofonias que tenha encontrado no caminho, inclusive na linguagem jurídica. Talvez até tenha sido vítima de alguma, o que não é preciso confessar. Peço que envie mensagem para o Escreva Direito do Espaço Vital, onde vamos compartilhá-las (e não compartilhar elas) com os demais leitores, e comigo, é claro.

Uma advertência: Não fique procurando cacofonias com muita persistência, pois poderá encontrá-las (e não encontrar elas) até mesmo no Código Penal, no Estatuto da Criança e do Adolescente e até mesmo na Bíblia Sagrada.


A PALAVRA DO LEITOR

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