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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 05 de junho de 2020.
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Em paz com o português



Arte EV sobre foto Visual Hunt

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O advogado Antônio Luiz Almada Prestes envia mensagem manifestando sua inconformidade com o uso do plural pazes, pois, segundo ele, “a paz é uma só”. Cita um exemplo: “O João e a Maria fizeram as pazes depois de mais de seis meses em que haviam rompido o namoro”.

Se as línguas fossem ciências exatas, nosso leitor estaria coberto de razão, pois se a paz é uma só, como justificar a flexão para o plural. O mesmo acontece com diversas outras palavras, como saudade, palavra frequentemente flexionada para o plural saudades, apesar de esse sentimento ser um só.

No entanto, apesar de as normas que regem seu uso seguirem princípios lógicos em sua maioria, as línguas não são ciências exatas, por uma razão simples: o usuário, mesmo no meio cult0, muitas vezes transgride essas normas e acaba consagrando formas que do ponto de vista da lógica são equivocadas. O processo é semelhante ao que ocorre no Direito. Sintetizando, não é o legislador que gera as leis; na verdade, no regime democrático, as normas se processam na convivência entre os cidadãos, que levam seus anseios aos legisladores, a quem cabe dar-lhes forma.

Sempre é oportuno lembrar que a palavra é apenas uma das fontes de significado; a outra, mais rica, é o contexto. Exemplo: Em “Antônio é um grande advogado” estou usando as mesmas palavras de “Antônio é um advogado grande”, mas o sentido é muito diferente; bastou inverter a ordem entre o substantivo advogado e o adjetivo grande para obter substancial diferença de significado. Outro exemplo: “Antônio é advogado, mas é honesto”, em palavra alguma se afirma que alguém seja desonesto, mas é o que a frase deixa a entender, e, pior, de forma absurda, estende esse significado a toda a classe dos advogados.

Voltando ao caso de pazes, apesar de equivocado do ponto de vista lógico, o uso consagrou o plural para algumas situações, em especial quando envolve mais de uma pessoa, como no exemplo citado. Com a palavra saudade, ocorre algo semelhante, mas não igual, pois se admite escolher entre singular e plural em qualquer circunstância. Tudo porque o usuário do idioma, o verdadeiro legislador, assim determinou.

Assim, meu caro Dr. Antônio, fique em paz e faça as pazes com a língua portuguesa.


A PALAVRA DO LEITOR

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