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Porto Alegre (RS), sábado,
28 de março de 2020.
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O torcedor e o ministro



Arte de Camila Adamoli – Versos de Lamartine Babo (Hino do Flamengo)

Imagem da Matéria

Já é fevereiro de 2020. Ao início da primeira sessão de determinada câmara do Tribunal de Contas da União, após o recesso 2019/2020, um dos ministros pede a palavra, dirigindo-se ao numeroso público presente:

- Excelentíssimo senhor presidente, para evitar que tal assunto venha a ser levantado durante a sessão, tumultuando os trabalhos, informo ao público que, sim, eu sou um dos ministros que arranjou uma palestra sobre corrupção em Abu Dhabi, para poder ir assistir ao jogo do Flamengo no Qatar, com as despesas pagas pelos contribuintes.

Diante de um princípio de inquietação da plateia, o ministro prossegue:

- É preciso que o povo entenda que existe o “eu ministro” e o “eu torcedor”. O “eu ministro” compareceu, de fato, aos compromissos internacionais oficiais, e o “eu torcedor” compareceu só ao decisivo jogo do Mengão. São coisas separadas e uma não afeta a outra. Por isso, não me envergonho do que fiz.

Após essas considerações, o ministro presidente da câmara do TCU anuncia a pauta do dia, que inicia com um processo de relatoria do colega flamenguista que, por sua vez, procede no relato das atrocidades imputadas a um gestor público e refere as graves penalidades que podem ser aplicadas no caso.

Concedida a palavra para que exponha a sua versão sobre os fatos, o imputado, na falta de outros argumentos, de reporta a recentes precedentes do próprio TCU para embasar sua defesa:

- Excelências, os fatos são gravíssimos e foram bem relatados pelo nosso ministro torcedor. Mas é preciso que se compreenda que eles não foram cometidos pelo meu “eu gestor”, idôneo e probo. Tais fatos infames foram praticados por um “outro eu”. Trata-se de um “eu contraventor, egoísta e prepotente”, que não se confunde com o “eu inocente” que agora pessoalmente aqui se dirige a Vossas Excelências.

As manifestações da tribuna seguem nessa linha, com o gestor atribuindo toda a responsabilidade a seu ´alter ego´ maligno, de quem tinha nojo e, às vezes, segundo relatava, até medo. A essas alturas, parece conveniente ao relator que tal linha defensiva seja acolhida pelo colegiado, tanto que antecipa que vai votar favoravelmente ao acusado.

O argumento também gera empatia entre os demais ministros que decidem, à unanimidade, pelo arquivamento da representação.

Retornando para o Rio de Janeiro, com saudade dos amigos e cheio de estórias para contar sobre suas aventuras no Oriente Médio, o ministro torcedor acaba se excedendo nas comemorações. Chegando em casa só depois de o sol raiar, o homem é recebido pela esposa que não demora para reparar na nítida mancha de batom que ele ostenta em seu colarinho, além de vários outros indícios que o incriminam.

Ante o olhar fulminante da mulher, o ministro se defende:

- Amor, quem fez isso foi “outro eu”. Um eu “mulherengo, incorrigível”! Realmente, é imperdoável aquele “outro eu”...

Tudo ficção. Tudo metáfora.


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