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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 05 de junho de 2020.
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O pato e as “altas autoridades”



Imagens Freepik / Montagem e criação de Gerson Kauer

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Em regra, os adjetivos têm antônimos, aqueles nomes de sentido oposto: bom/mau, cheio/vazio, fácil/difícil, etc. Como as línguas são regidas por regras (que sempre têm exceções), e não por dogmas (que não admitem exceções), também aí encontramos situações em que a exceção justifica a regra. Exemplo claro encontramos entre as notícias sobre o processo de licitação que se tornou conhecido como a Suprema Farra das Lagostas, em que a quebra desse padrão se manifesta com muita força.

Na descrição do objeto da referida licitação, informava-se que as denominadas “refeições institucionais” destinavam-se a “altas autoridades”. Neste caso, o antônimo do adjetivo altas e baixas. Em oposição às mencionadas altas autoridades, quais seriam as baixas, as excluídas da possibilidade de participar dessas refeições? Onde estaria o limite entre as duas escalas de autoridades?

A dúvida em relação à questão cresce na aplicação da regra gramatical das iniciais maiúsculas, segundo a qual se usa inicial maiúscula na designação das altas autoridades. A norma gramatical também se omite na definição desse limite, nem menciona a existência de baixas autoridades.

Aliás, essa subjetividade na regra acabou gerando usos extremos: os grandes veículos de comunicação adotam não usar inicial maiúscula na designação de qualquer autoridade, da mais alta à mais baixa, enquanto na prática das comunicações entre instituições, tanto públicas quanto privadas, adota-se o extremo de usar inicial maiúscula na designação de qualquer autoridade.

Na classificação das autoridades, portanto, o adjetivo alto não sofre a oposição do baixo. Curiosamente, situação oposta encontramos na expressão baixo clero, em que o heterônimo alto clero é rejeitado.

Curioso é também o uso desse adjetivo na linguagem do futebol, em que se fala muito em marcação alta, mas não na estratégia oposta, a da marcação baixa.

Outra questão rara presente no processo licitatório das lagostas é que ele prevê a presença do pato no cardápio, ingrediente que o distingue para o alto, já que só integra pratos requintados. Diferentemente do adjetivo alto, que sempre leva para cima, o substantivo pato no caso da refeição conduz para baixo, para aquelas que seriam as baixas autoridades, os cidadãos comuns; enfim, para aqueles que “pagam o pato”.

Conclusão: o melhor dos significados não está nas palavras, mas nos contextos em que ocorre seu uso.


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