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Porto Alegre (RS), terça-feira, 14 de julho de 2020.

“O câncer me pegou no contrapé, mas venci de goleada por 3 x 0”



Imagem Wildpixel/Thinkstock

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Por Delma Silveira Ibias, advogada (OAB-RS nº 25.567)
dibias@outlook.com.br

No final do ano de 2013, quando realizava consulta anual com o meu médico dermatologista - que solicitou, dentre outros, o exame denominado CEA – antígeno carcinoembrionário - tive diagnosticado um câncer de intestino ("adenocarcinoma", pouco diferenciado, no cólon sigmoide) - um tumor maligno dos mais agressivos, em estado adiantado, pois já ocupava um terço do intestino.

No momento do diagnóstico, fui tomada pelo susto, fiquei desorientada, tive dificuldade de reorganizar o pensamento. Mas em seguida, ´o cartão começou a cair´, e concluí: “A morte é o que de pior pode me acontecer e a luta pela cura é mais uma chance de continuar levando esta vida de alegria, realizações, trabalho, festas e danças, que eu adoro, curto e amo de paixão”.

E não tive dúvidas ao decidir agarrar esta chance com todas as minhas forças e energias!

E ali iniciou-se uma luta ferrenha, um jogo, onde, apenas um, sairia vencedor, pois no caso de empate, a decisão seria resolvida nos pênaltis!

Sou uma pessoa que conquistou a maioria das coisas boas que a vida pode nos dar: uma família acolhedora, cuidadora e companheira. A profissão que muito me realiza: advogar e lecionar. Dançar, viajar e sorrir! E concluí, que era muito prematuro para tudo isso acabar assim, sem aviso prévio!

Diante disso, optei pela segunda alternativa e iniciei uma árdua batalha, depois de noticiar à minha família e a colegas de trabalho. Enfrentei a maratona de consultas com especialistas, cada um solicitando uma gama enorme de exames (laboratoriais, RX, tomografias, colonoscopia etc.), concluindo, com a equipe médica, que deveria realizar a intervenção cirúrgica o quanto antes. Isso veio a ocorrer exatamente, no trigésimo dia, após a primeira suspeita do diagnóstico derradeiro.

Nesse período, procurei manter quase todos os compromissos agendados, inclusive congressos e viagens fora do Estado, dividindo a notícia, apenas com as pessoas muito próximas, pois não achei conveniente, naquele momento, revelar abertamente.

Contudo, antes da minha internação, em 5 de dezembro de 2013 resolvi postar um depoimento nas redes sociais, relatando o ocorrido e alertando os amigos, da importância e da necessidade de se realizar os exames revisionais e preventivos periódicos, pois eles são fundamentais e decisivos e podem salvar as suas vidas.

É importante ressaltar que temos o hábito de imaginar “que conosco isso não acontece” ou, “que quem procura doença, acaba encontrando”.

Porém, alerto que esses jargões populares são falaciosos, pois, no meu caso - como nunca senti qualquer sintoma e sempre fui uma pessoa muito saudável e ativa - possivelmente, quando viesse a descobrir o tumor, fosse tarde demais, pois ele já ocupava um terço do intestino e estava em estágio muito adiantado. E eu não sentia nenhum dos sintomas que os pacientes geralmente sentem, o que deixou a equipe médica impressionada.

Esta exigiu a presença dos familiares no momento da alta com a finalidade de passar todas as recomendações, quando o cirurgião passou a fazer as recomendações, alertando que não poderia fazer esforços físicos como varrer, cozinhar. Foi quando o médico foi interrompido pelo meu filho, muito espirituoso que pediu licença e fez a seguinte colocação:

Doutor Marcelo, o senhor apenas diga quando ela poderá voltar a dirigir, trabalhar no computador, dançar fandango, viajar, porque essas questões domésticas, nem perca o seu tempo, pois minha mãe nem sabe onde fica a vassoura, ou as panelas lá em casa, porque essas são tarefas masculinas da competência minha e do meu pai na nossa casa, porque até nisso a minha mãe é uma feminista de carteirinha!

Todos riram muito e passou-se a outras advertências!

Todavia, travou-se o primeiro embate entre equipe médica e paciente, pois, na condição de presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família do RS – IBDFAM/RS, estava há um ano, organizando o 1º Congresso Brasileiro de Direito de Família em Alto Mar, para os primeiros dias de janeiro daquele ano (2014), em um navio que saia do porto de Santos, indo até Salvador e retornando em uma semana.

O impasse estava posto, daí diz o oncologista: “Temos de iniciar imediatamente as sessões de quimioterapia, pois nós já havíamos combinado!”

Como advogada atenta, imediatamente contestei, já sentenciando: “Pois é doutor, neste momento acabamos de descombinar!”

E continuei: “O senhor já imaginou que chique, sair em todas as manchetes dos jornais e redes sociais o seguinte: “Advogada gaúcha, presidente do IBDFAM/RS, morre em congresso de Direito de Família em alto mar porque se negou a iniciar as sessões de quimioterapia, à revelia do seu médico!”?...

Todos nós, novamente, rimos muito e ele acrescentou: “Advogada é o pior tipo de paciente que temos, pois ela sempre nos vencem nos argumentos!” E lá fui eu para o meu congresso em alto mar, que foi um sucesso e voltei viva e pronta para enfrentar a tirania da quimioterapia dentro do programado!

Contudo, em 15 de julho de 2015, foi detectada uma metástase no ovário esquerdo, sendo removido o tumor muito pequeno e bem inicial e, por precaução, os dois ovários foram retirados e, novamente, vieram as sessões de químio e radioterapia.

Porém, o câncer não se dava por vencido. Assim, em 23 de outubro de 2018 me submeti a mais uma cirurgia, desta vez uma metástase no pulmão direito, seguido de mais um longo tratamento, contabilizando em menos de cinco anos, três tumores e várias cirurgias e internações e um número incontável de exames de acompanhamento.

Foram seis cirurgias e hospitalizações, pois além da retirada dos três tumores, fiz mais duas cirurgias de hemorroidas e outra para a colocação de cateter para as aplicações de quimioterapia.

Em 6 de maio de 2019, meu oncologista, em uma carta de libertação - ou um alvará para nós advogados - determinou a retirada do cateter, através do qual realizava a quimioterapias.

Por ora, estou curada e venci o câncer de goleada de 3 x 0!

Essa foi a última cirurgia, mas que nem computei, pois como não se tratava de tumor cancerígeno, considerei como um gol anulado pelo VAR.

Feito este relato, registro as duas principais lições que o câncer me legou. A primeira, que tenho muito mais amigos verdadeiros e queridos, do que as minhas estatísticas computavam. A segunda, que fica como alerta a todos: façam os exames revisionais periódicos, pois qualquer doença diagnosticada a tempo, pode salvar a sua vida - assim como, não tenho dúvida, salvou a minha.

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(*) A articulista é advogada; professora universitária; mestre em Direitos Humanos pela Uniritter; ex-conselheira estadual da OAB-RS; ex-presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB-RS; vice-presidente do IBDFAM/RS; julgadora do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/RS.


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