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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 3 de julho de 2020.
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A consultora de ideias



Chargista Duke - https://domtotal.com/

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O ex-Procurador-Geral da República adentra à agência de uma renomada consultora de relações públicas. Pelo que diziam, ela era a grande responsável pela mudança de rumos do País.

- Não estou conseguindo conviver com o ostracismo – diz o aposentado, com a voz embargada. Quando eu ainda era procurador-geral, meu nome estava sempre na boca do povo. Eu era amado, venerado. De repente, deixo o poder e nunca mais vejo meu rosto em uma capa de revista.

- E quão longe você está disposto a ir para conquistar a almejada atenção da mídia? – indaga, com segurança, a profissional.

- Faço qualquer coisa – responde, firme, o consulente.

E então a consultora demonstra seus dotes, apresentando um parecer de vanguarda:

- Bem, não anda fácil chamar a atenção do público apenas falando barbaridades à imprensa. Já usei essa estratégia com outro cliente. Deu muito certo, mas ele foi tão fundo, que hoje é difícil superá-lo.

- Entendo – consente o homem, cabisbaixo.

- Faça o seguinte! Escreva um livro relatando coisas escandalosas que prejudicarão inclusive o trabalho dos seus ex-colegas procuradores.

- Mas isso não é ir longe demais?

- Isso é não ir longe o suficiente. Aliás, para coroar a sua obra, realize um assassinato!

- O quê?! – o cliente arregala os olhos.

A consultora explica que não se referia a um homicídio, propriamente, mas apenas que ele externasse que planejava matar alguém. Alguém que o povo já não gostasse muito, pois o eleitor hoje preza pela autotutela, testosterona, armas de fogo. E que, assim, ele criaria um sentimento de identificação entre o público e si, vindo a tornar-se, um dia, quem sabe, Presidente do Brasil, como já acontecera com outro cliente dela.

O ex-procurador, confiando cegamente no parecer, produz uma obra-prima, escolhendo um ministro do Supremo, que já era seu desafeto, para ser sua fictícia vítima em potencial.

A consultora, ao ler o rascunho, não poupa elogios:

- Adorei! Adorei que você usou até uma onomatopeia, fazendo “tchic-tchic”, para demonstrar que engatilhou a arma! Sugiro trocar a parte que você diz que “pretendia alvejá-lo”, por “pretendia dar um tiro na cara dele”. Nessas horas, o povo prefere a bestialidade ao juridiquês.

E com esse reparo, o livro vem a público imortalizando o seu autor. Mas não como ele pretendia, pois, embora tenha voltado às manchetes, deu margem para que seu legado profissional fosse questionado, e que sua potencial vítima o esculachasse perante a imprensa.

Já a consultora considerou esse trabalho como mais um “case” de sucesso e ainda comemorava quando alguém bateu à porta de sua agência. Ao perguntar quem era, pode ouvir apenas um som: “Tchic-tchic”.


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