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Edição de terça-feira , 15 de outubro de 2019.
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Pai Badula e o auxílio-saúde para magistrados e servidores estressados



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Desfecho curioso teve uma ação movida pelo Ministério Público que pretendia encerrar as atividades de uma pouco difundida religião ancestral africana. A sentença de procedência, proferida em audiência, percorreu caminhos tortuosos, ambíguos, vagos, tudo para fugir dos tabus e mascarar o puro e simples preconceito.

Percebendo isso, Pai Badula, sumo sacerdote da tal religião, lançou um feitiço sobre todos os operadores forenses:

Vassuncês julgam, mas usam da hipocrisia para não serem julgados. Pois por uma semana terão que enfrentar seus tabus sem seu principal mecanismo de defesa!

E a praga logo se manifestou quando o escrivão, sem ver maldade em suas palavras, pediu a um serventuário que não levasse o seu namorado para o churrasco da repartição, pois enojava-se com demonstrações de afeto entre dois homens.

A balconista cartorária atendia cordialmente um advogado idoso, quando referiu, com um sorriso no rosto, que todo aquele procedimento poderia ter sido feito pela internet e que lamentava ter que perder seu tempo, “só porque os velhos relutam em aderir à tecnologia”.

Entrementes, um dos juízes da comarca dava entrevista para um telejornal e, perguntado acerca do auxílio-moradia, referiu sem meias palavras:

Esse auxílio-moradia, assim como outros penduricalhos, são formas veladas de conceder aumento às classes de juízes e promotores. Temos que fazer assim, para extrapolar os limites legais. Afinal, são carreiras de altíssima responsabilidade, que envolvem uma série de renúncias e que, portanto, têm que ser atraentes aos os jovens profissionais mais capacitados.

Houve uma pequena inquietação entre os repórteres, mas todos se contentaram com a resposta honesta.

Seguiu-se uma inesperada melhora no relacionamento entre os servidores. O tal escrivão compreendeu melhor a relação homoafetiva mantida por seu subalterno. Aquele advogado ancião fez um esforço maior para resolver suas demandas pela internet. Surgiram oportunidades melhores para mulheres e negros.

Enfim, percebeu-se que a mandinga do sacerdote Pai Badula não era uma praga, mas uma benção.

A serventia tornou-se um “case” de sucesso e aquele mesmo juiz que havia dado entrevista sobre o auxílio-moradia foi procurado novamente pela imprensa para falar sobre as boas práticas adotadas no fórum:

De fato, expor nossos reais valores e sentimentos permitiu que nos conhecêssemos melhor, bem como que pudéssemos trabalhar e resolver os problemas entre nós, reduzindo sobremaneira o estresse.

Um repórter interveio curioso:

Isso quer dizer que o pessoal aqui do fórum não vai receber o novo auxílio-saúde criado pelo CNJ para indenizar juízes e servidores estressados?

O magistrado medita por um tempo, mas, já expirado o encanto por Badula, pontua:

Sabe o quê mais? Estou percebendo que o nosso estresse está voltando...

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Rafael_berthold@hotmail.com


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