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Edição de terça-feira , 15 de outubro de 2019.

Fraudes no varejo: oportunidade e realidade



Por Fernando Guinzani, graduado em Letras, membro do Comitê de Prevenção de Perdas, Riscos, Auditoria, Compliance e Segurança, do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo.
Fernandoguinzani@gmail.com

O conceito de fraude atualmente possui muitas definições. No dicionário Houaiss, por exemplo, fraude é o artifício para se enganar. Já para Joseph T. Weels, autor do Manual da Fraude na Empresa, trata-se de qualquer crime para a obtenção de lucro, utilizando o logro como principal meio. O fato é que, independentemente de sua definição ou mesmo da percepção sobre suas motivações, as fraudes se mostram como parte de um relevante problema – perdas financeiras.

E sobre isso, alguns números falam por si só. Perdas no varejo em 2017, somente no segmento supermercadista, atingiram a marca de R$ 6,4 bilhões, segundo pesquisa publicada pela Associação Brasileira de Supermercados. Se considerarmos os demais segmentos varejistas este número se torna três vezes maior; furtos internos e externos totalizam 25% do prejuízo. Se acrescidos outros segmentos varejistas, além dos supermercados, fraudes e furtos representam 44% da perda no varejo no mesmo ano.

Segundo último reporte emitido pela ACFE (Association of Certified Fraud Examiners), o principal motivo identificado em sua amostra para a ocorrência de fraudes foi a falta de controles internos (30%).

Diante de dados tão vultosos, pergunta-se: Qual importância os varejistas têm atribuído às perdas decorrentes de fraudes? Atualmente qual direcionamento os varejistas atribuem às suas áreas de controle, quando existentes? De fato, mitigar riscos de fraudes, estabelecer um ambiente mais controlado e reduzir perdas se mostra como um dos objetivos em comum de áreas como Prevenção de Perdas, Riscos Controles Internos, Compliance e Segurança. Apesar de escassas, não é possível negar que já existam iniciativas bem interessantes sobre o assunto.

Para ilustrar, menciono dois exemplos recentes. Em 2018, foi fundada a ANCAF, Associação Nacional de Combate a Fraudes. Uma outra ação inovadora parte do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (IBEVAR), que criou o Comitê PRACS (Prevenção de Perdas, Riscos, Auditoria, Compliance e Segurança), capaz de congregar todas as áreas de controle de segunda e terceira linhas de defesa à luz da produção de conteúdo e de debate construtivo, inclusive com o tema fraudes presente em pauta.

Mas quando olhamos para o campo, percebemos que as ações fraudulentas continuam a ocorrer sem grandes inovações. Poderíamos mencionar dezenas de práticas já conhecidas; para ilustrar, selecionamos três.

1.Desvio de sangria - Chamam-se sangrias as retiradas programadas de dinheiros dos caixas por funcionários do setor. No segmento supermercadista, por exemplo, uma funcionária, normalmente a líder do caixa central, dirige-se para os caixas onde retira os valores. Iniciativas fraudulentas neste processo demonstram que a ausência de rigoroso procedimento definido ou monitoramento de controle deste permite à operadora ou responsável pela retirada da sangria o desvio do numerário retirado.

2.Adaptação/troca de PIN PAD – Assim chamada é a máquina utilizada para efetivação de transação com uso de senha. Esses dispositivos podem ser seguros e confiáveis quando utilizam assinaturas digitais; contudo, já são conhecidas formas de se adaptar tecnicamente tais aparelhos e com isso desviar valores recebidos para contas de fraudadores.

3.Componentes subtraídos de equipamentos - Nesta prática, o fraudador abre a embalagem de determinado produto no interior de uma loja e subtrai para si uma peça daquele mesmo produto, seja um pino, suporte, acessório qual seja.

Não se tratam de práticas novas. Diante de um campo tão fértil quanto as oportunidades para prática de desvios, é evidente que, no Brasil, há muito o que se fazer quando falamos em prevenção, detecção e resposta a ações de fraude no varejo. Que os grandes players (e os menores também) continuem a apoiar e investir em controles para que áreas como prevenção de perdas, riscos, auditoria, compliance e segurança possam continuar a dar suas importantes contribuições para um varejo de resultados cada vez mais consistente.

E que possam ainda, estas mesmas áreas, atuar em uníssono, seguindo em direção ao melhor modelo de governança. Vale a pergunta ao lojista ou supermercadista que me lê: Como estão suas áreas de controle?


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