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Porto Alegre (RS), terça-feira, 02 de junho de 2020.

Virem-se e estudem!



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Por Carlos Alberto Bencke, advogado (OAB-RS nº 7.968)

Valdirene, Jaqueline e Jeniferlídia eram três meninas de boas famílias do interior, muito inteligentes, estudiosas e primeiras na escola. Terminaram o segundo grau e passaram em universidade particular na Capital, só que as suas respectivas famílias, de classe média baixa, não conseguiriam pagar.

Resolutas, as três combinaram que iriam fazer as matrículas e depois iriam “se virar” para quitar as mensalidades.

Instalaram-se numa morada em próspera zona comercial da Capital e distribuíram panfletos de propaganda, anunciando a abertura de uma casa de diversões para o público masculino adulto.

Ao lado, havia uma - também próspera - igreja evangélica. É claro que um dos panfletos caiu nas mãos santas do pastor. Indignado, ele usou suas perorações diárias durante os cultos de cura das enfermidades sexuais, “para afastar estas pecadoras do lado de nossa abençoada casa divina”.

Tanto rezaram que, uma noite, durante uma farra homérica na casa, houve um incêndio causado por um curto-circuito nos fios na frente das duas casas. Na Casa Divina, nada; na Casa Maligna, destruição total. Comemorações e agradecimentos aos céus pela bênção, de um lado; impregnações pelo “olho grande” do pastor, de outro.

As meninas, cursando Direito, ingressaram com ação contra a igreja vizinha, afirmando terem sido as orações que “chamaram” a tragédia. Na contestação, a óbvia defesa de que preces não atraíam qualquer desventura ao próximo.

A juíza, exemplo de retidão pessoal, julgou improcedente a ação, mas não deixou por menos na fundamentação: “É um caso sui generis; de um lado universitárias crentes nos castigos divinos pelas ´vidas fáceis´ que levavam e de outro evangélicos descrentes no poder das orações”.

Nos corredores forenses e da OAB muitos lamentos... Das três meninas de boas famílias, só Jeniferlídia tem sido vista no fórum. Com a compaixão de um advogado de terceira idade, ela é autora uma ação de alteração do registro civil.

Por “azares e incômodos morais” que o prenome Jeniferlídia agora lhe causa, ela pretende passar a chamar-se Samantha...

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