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Edição de terça-feira , 16 de abril de 2019.
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Triste madrugada foi aquela...



Camera Press

Imagem da Matéria

Desculpem se, hoje, não trato do Internacional, do nosso time. Ocorre que os fatos que nos atropelam neste início de 2019, não permitem refúgios emocionais.

Testemunhamos a repetida tragédia com as barragens da Vale. Somente na última, morreram mais de 300 pessoas. A máxima é sempre a mesma: preponderância dos interesses econômicos em detrimento de vidas.

Todos nós, ou ao menos aqueles que têm a capacidade de se colocarem no lugar dos outros, fomos impactados pelos dramas de mães, pais, casais, amigos, enfim todos aqueles que foram marcados, não pelo inevitável, mas pelo previsível. Foram dias pesados para todos nós.

Sem querer comparar, dando maior importância para um ou outro fato, fomos surpreendidos pela tragédia do Ninho do Urubu, que vitimou dez meninos das categorias de base do Flamengo. Apenas porque é uma realidade mais próxima da minha vivência, permaneci por dias com um nó na garganta. Fui acometido de uma grande tristeza e de uma inquietação sem limites.

Ao ver o que restou dos alojamentos, ao me deparar com a biografia de cada um dos meninos e a dor dos seus familiares, a inquietação se transformou em profunda revolta.

Revolta pela forma irresponsável e porque não dizer criminosa, como as coisas do futebol são tratadas. Revolta por saber da existência de endividamentos astronômicos dos clubes na contratação de profissionais, em contraste com a espelunca, verdadeira arapuca, destinada àqueles meninos que representam o que de mais lindo há no futebol, a pureza.

A pureza de gostarem do esporte como brincadeira, a pureza de acreditarem no futuro e nas estruturas envolvidas, a pureza em desejarem resolver com o talento as privações de seus familiares.

Apenas isso!

Sem atentarem para os interesses financeiros de terceiros, sem saberem o que efetivamente existe no mundo real da bola, eles apenas jogavam. Foram vítimas da negligência, do descaso, do “vamos ver depois”. Quantos foram os profissionais, se que assim podemos chamar, que dedicaram energia para burlar notificações e pedidos de interdição. Devem ter sido muitos, esforços visíveis e invisíveis, ortodoxos ou nem tanto, no objetivo de manter aquilo funcionando.

Janelas adaptadas em containers, instalações elétricas precárias, material inflamável no revestimento interno e assim por diante.

Crônica de mortes anunciadas.

Quem conhece a trajetória dos jogadores de futebol, quem tem noção da esperança que cercava esses meninos sabe muito bem do que falo.

Esforço e dedicação. São meninos que deveriam ser guarnecidos pelos maiores cuidados, cuidados como joias. Eram apenas crianças.

Se essa é a realidade de um dos maiores clubes brasileiros, imaginemos como é no restante.

Fica a profunda dor pelo fato que de acidente não há nada. Fica a triste constatação das tentativas ridículas da diretoria em querer salvar a sua pele em entrevistas e documentos insuficientes.

E, por fim, em todas as tragédias, fica a constatação de que sempre se tenta empurrar a responsabilidade com exclusividade aos órgãos públicos. Vivemos em um país - estado e cidade quebrados –

que desenvolve as suas atividades mais elementares com enorme precariedade.

Mas e aqueles que como responsáveis pelas empresas e clubes deveriam adotar providências e cautelas?

Alguém do Flamengo ou da Vale pode dizer que não conhecia os riscos. É claro que não - , mas deram mais importância aos custos.


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