Ir para o conteúdo principal

Edição de terça-feira , 18 de dezembro de 2018.

O perdão judicial



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Por Vasco Della Giustina, advogado (OAB-RS nº 3.377) e desembargador aposentado do TJRS.

Em uma comarca da fronteira gaúcha, na condição de promotor público, fui testemunha “a latere” de algo incomum. O juiz dali mora no hotel - e sua família reside em outra cidade. Volta e meia sua esposa o visita. Numa das vindas da cônjuge, o apartamento hoteleiro onde fica o casal é alvo de um “voyeur”.

Constata-se que alguém - tudo indica um hóspede – fizera um furinho na porta para espionar afagos íntimos – pontuando-se que a esposa do juiz é bela e elegante. Muito intrigado, o magistrado sai a campo para descobrir o abelhudo autor da invasão visual.

Para tanto, o juiz pede ao proprietário do hotel que determine às camareiras que, quando da limpeza das demais unidades de hospedagem, façam uma varredura nas malas dos hóspedes, para tentar descobrir aquilo que ele imaginava ser a arma do crime. Por evidente, a ordem é logo cumprida!

Assim, num dos apartamentos é encontrada, na mala de um habitual hóspede – um viajante vendedor de livros - uma verruma, sabidamente instrumento próprio para abrir furos na madeira.

Incontinenti, o magistrado, convoca seu oficial de justiça - ao tempo um brigadiano cedido ao fórum - para levar imediatamente à sua presença, na sala de audiências, o indigitado violador. Justamente o hóspede do quarto onde fora encontrada a verruma.

Depois de um chá de banco, o suspeito é levado à presença do juiz que, após fitá-lo longamente, puxa de uma gaveta o instrumento do crime e pergunta:

- O senhor conhece esta verruma?

Sem esperar resposta, o próprio magistrado emenda: “A porta que o senhor furou com esta arma é a do quarto meu e da minha mulher, e o senhor será denunciado por nos espionar indevida e criminosamente”.

O hóspede, entre trêmulo e surpreso, tenta balbuciar algo, mas é logo calado pelo magistrado, que em seguida sentencia: “Agora o senhor vai direto para o presídio, cumprir pena pelo seu ato”.

Devidamente escoltado pelo oficial de justiça, o novo “presidiário” sai a pé, do fórum em direção à cadeia, a três quadras de distância.

Já em meio à praça principal, o “presidiário” é alcançado por um serventuário com a nova ordem para que condutor e conduzido retornem ao fórum.

Reintroduzido o acusado na sala de audiência, diz-lhe o juiz:

- Desta vez eu vou lhe perdoar. Mas o senhor tome o primeiro ônibus que vai a Porto Alegre e nunca mais ponha os pés por aqui.

O novo perdoado, agora aliviado, sai rápido do fórum, em meio a olhares curiosos dos servidores, pega a mala no hotel e desaparece da cidade. Consta na comarca que, até hoje, ele nunca mais ali retornou!

E se crimes ou exageros houve, a esta altura pouco importa, pois o longo período já decorrido, desde o episódio, se encarregou de deixar tudo alcançado pela prescrição.


Comentários

Banner publicitário

Notícias Relacionadas

Charge de Gerson Kauer

  O enterro da sogra que não morreu

 

O enterro da sogra que não morreu

A inusitada abordagem no plantão judicial forense. Como autorizar o funeral de uma provecta idosa, de aparência taciturna, que – como manifestação de última vontade - deseja ser sepultada no sítio em que reside? O texto é de Dirnei Bock Hendler, servidor judicial estadual (RS)

Charge de Gerson Kauer

A fama do João Grande

 

A fama do João Grande

Era uma ação penal contra um homem que estaria ofendendo e ameaçando a ex-esposa. As desavenças ocorriam porque ela postava, nas redes sociais, que o ex-marido vivia sempre na casa do João Grande, famoso na cidade gaúcha por ser bem-dotado.

Charge de Gerson Kauer

O gaúcho caloteiro

 

O gaúcho caloteiro

A difícil intimação de um fazendeiro, já conhecido no meio forense, como o Senhor Caloteiro. O êxito da diligência só acontece porque, no esconderijo, o devedor é acometido de coceira causada por urtiga.

Charge de Gerson Kauer

   A experiência dos velhinhos

 

A experiência dos velhinhos

Segundo a cartilha do banco, os saques mínimos no atendimento presencial seriam de R$ 200. Saiba como a idosa senhora - mãe de um advogado e avó de um estagiário do tribunal - convenceu o caixa de que ela tinha direito líquido e certo a sacar apenas R$ 50.

Charge de Gerson Kauer

Quando o suposto amor vira negócio

 

Quando o suposto amor vira negócio

O cliente, à hora da saída do motel, acelera o carro, derruba a cancela e se vai em desabalada fuga. Saiba porque, em Juízo, o tresloucado gesto do homem comove o juiz e obtém simpatia do dono do estabelecimento de hospedagem.

Gerson Kauer

Perfume de segunda categoria

 

Perfume de segunda categoria

Após presidir a audiência de ação penal relativa a roubo à mão armada ocorrido em uma loja de perfumes, o elegante juiz é surpreendido com a pergunta desferida pela vítima: “Doutor, o senhor tem compromisso para hoje à noite?