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Edição de terça-feira , 18 de dezembro de 2018.
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As mil e uma noites



• Escapando da morte – A bela jovem Xerazade, prometida à morte pelo rei Shariar, após ele ter sido traído pela sua ex, somente escapou da execução porque, noite após noite, ela contava-lhe um belo conto.

Para aqueles que estão em andanças pelo mundo árabe, ainda resta uma noite. Escaparão ou não da execução como Xerazade?

• O futebol para os árabes – O futebol também é algo peculiar nos países árabes. Geralmente ele se impõe pela prática e pelo gosto popular. É sem dúvida o esporte de maior interesse no mundo. Mas lá, apesar de sediarem o Mundial de Clubes e a futura Copa do Catar, não é bem assim.  Trata-se de uma sociedade religiosa, formada por clãs a partir das famílias dos soberanos. A influência britânica, seja em razão dos protetorados decorrentes da exploração petrolífera, seja pela incidência cultural, leva os afortunados herdeiros a estudarem nas principais universidades inglesas, onde entram em contato com o futebol.

Ao retornarem montam os seus times para disputarem entre si, gastando fortunas na contratação de técnicos e de jogadores. É quase o que fazíamos com os nossos times de botões. Os indianos e os paquistaneses representam a mão de obra disponível. São eles que executam a um baixo custo e sem proteção legal, as atividades necessárias, geralmente as mais penosas.

Quando vi, o estádio estava cheio mas não lotado, as roupas eram todas iguais e, lado a lado, somente homens com bandeirinhas com o símbolo do Internacional e outras com o símbolo do adversário. O mais espantoso é que o jogo corria e os “torcedores” ou olhavam para os lados distraidamente, ou conversavam entre si. Mais tarde soube que cada uma deles recebeu U$ 10 pelo comparecimento.

• Um perigoso susto – O Al Jazira é um dos times formados para encantar os xeiques, apenas isso. Lá foi parar aquele Romarinho que conhecemos surgindo com vigor no Corinthians. Jogar em um time árabe significa dinheiro no bolso e muito pouca exposição para o mundo. Pois o Al Jazira atormentou o Real Madrid. Um susto e tanto.

Não fosse o Real Madrid, o susto serviria para levar a incerteza e o temor para dentro do vestiário. No caso, acho que o efeito é ao contrário. Com certeza, o temido Real Madrid mostrará toda a sua capacidade de jogar futebol.

• Tempos modernos – Não lembro de outra partida de futebol onde o chamado árbitro de vídeo tenha sido tão acionado e decisivo.  No jogo entre Al Jazira e Real Madrid, o recurso foi utilizado como nunca, mas com a diferença de que isso aconteceu aos olhos do mundo. Não há como deixar de concluir que estamos diante de mais uma alteração de conduta no futebol, por força da chamada revolução tecnológica. ´La mano de Dios´ não estará mais na pequena área adversária!

• A gangorra – Se há algo que me chateia são as certezas e os dogmas, especialmente quando no futebol. Aqui temos o tal efeito gangorra: se um está lá em cima, o outro está lá em baixo.  Quem não lembra desse brinquedo?  Na minha época, existente nas belas pracinhas, como por exemplo na Florida ou na Maurício Cardoso.  Quando um dos que brincavam era mais pesado que o outro, ou permanecia na extremidade oposta da prancha de madeira, o outro amargava o tal de castigo.

Em resumo, era o que estava em baixo que colocava o outro lá em cima. Então, para desfazer o equivocado dogma por aqui existente, não é o que sobre que faz o outro baixar, mas o que baixa que faz o outro subir.

E é assim concretamente.  Quando um dos grandes despenca em sua organização, objetivos e ética, o outro fica forçosamente em cima. Tal como no brinquedo o outro permanecerá em cima pelo tempo que o outro quiser permanecer em baixo.

• Para inverter a gangorra é preciso virar a página – Lembro de quando assumimos a direção do Internacional. Ao invés de reclamarmos na base do chororô, adotamos coletivamente a postura de respeitar a todos e tocar o barco. O primeiro ano foi muito difícil, mas a sua superação determinante para o conjunto da obra. Tínhamos uma enorme necessidade de resgatar o orgulho colorado.  Passamos a disputar tudo, até camisetas e bandeiras no público do Planeta Atlântida e o stand na Expointer. Vieram o Jornal do Inter, a Rádio Web Inter, a TV Web Inter, um saite para a interlocução com os sócios, a primeira reforma do estádio, os 100 mil sócios, as campanhas publicitárias, os 100 anos e assim por diante.

Fomos contaminados por uma verdadeira onda colorada que avançou sobre o Rio Grande, sobre o Brasil, sobre as Américas e sobre o mundo. Verdadeiramente, o gigante despertou e rugiu com mais intensidade.

E agora? Agora testemunhamos uma das maiores mediocridades da nossa história, a ausência total de um projeto de recuperação da nossa autoestima e que abra as portas para importantes conquistas. Quase que criminosamente, abdicamos da conquista do Gauchão de 2017 e do Brasileiro da Série B. Não desejávamos festejar ou nos impor como fizemos em outras épocas. Desejávamos, sim, reafirmar a nossa condição de campeões, mesmo que nas piores fases. O fiasco do ano anterior continuou.

A dúvida continua: onde está o projeto? Quem pode conduzir o S.C. Internacional para o seu caminho de grandeza permanente?

• Contratações e pré-temporada – Há muita gente experiente na gestão do futebol. Os dirigentes são episódicos, mas conseguem assimilar algumas lições. Pude aprender acerca da importância da pré-temporada. Além do trabalho técnico após a parada das férias, é fundamental para estreitar a convivência do grupo. Vivi algumas pré-temporadas em Bento Gonçalves à época em que estávamos em disparado crescimento futebolístico.

É o ambiente, o isolamento, o afastamento do convívio familiar, as reflexões e mesmo as brincadeiras que tornam o período extremamente útil para preparar a participação nas competições vindouras. Mais uma decepção que, com certeza, se justifica pelo comodismo de uma direção sem protagonismo. A pré-temporada será em Porto Alegre.

Uma pena, pois trata-se de uma péssima escolha. Também há algo que ainda não entendi: a lógica das contratações de jogadores para o time. Contratam o que tem disponível, de acordo com valores suportáveis, porém sem um critério de aproveitamento.


Comentários

Paulo A. P. Cordeiro - Advogado 15.12.17 | 11:11:52
Caro colega Dr. Siegmann, é fato a onda colorada nas gestões passadas, acreditavam na superação e com isso passaram a se comportar como clube efetivamente grande, no que vieram os resultados. Porém, o que movimenta nossa gangorra é também o que permite que um dos dois desça, a empáfia. Esta característica obriga a descuidar das qualidades, pela certeza de que as tem, porém, todos sabemos, elas devem ser cultivadas para que se mantenham. Como gremista, espero que sigam assim. Abraço!
Gustavo D'ávila - Advogado 15.12.17 | 09:53:32

Dr. Siegmann, sou gremista, mas a sua coluna foi de um brilhantismo singular. Não querendo me posicionar favorável ou contrário às suas palavras, mas todas elas foram muito bem colocadas. Parabéns!

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