Ir para o conteúdo principal

Edição de terça-feira , 18 de dezembro de 2018.

A fortuna do “Padre Eros”



Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Na cidade de 150 mil habitantes, o padre -  filho único - herdara todo o patrimônio deixado por seus pais. Era um homem rico - todos sabiam.

Liberal, o religioso não obedecia ao celibato.  Metade dos paroquianos sabia que ele mantinha uma união “semi-estável” com uma mulher de meia idade. Ela morava num lar montado pelo religioso, que a visitava quase todas as manhãs. E ela, embora frequentasse a missa dominical, jamais punha os pés na casa paroquial.

O padre também gostava de intimidades quantitativas. Para isso fazia incursões quinzenais -  e sempre matinais - numa cidade próxima, onde, então apelidado de “Padre Eros”, se encontrava com jovens parceiras para eventualidades simultâneas. Todas eram gratificadas de mão aberta.

A mulher da união “semi-estável” sabia disso e tolerava.

Certo dia, o padre sofreu um infarto e morreu na casa canônica. Logo soube-se que o finado deixara testamento. “Por este instrumento, é feita a doação de todo o patrimônio ao bispado” – certificara o tabelião, em escritura pública.

A mulher da união “semi-estável” ajuizou ação ordinária e - melando o testamento - quis amealhar o patrimônio todo. Ela perdeu em primeiro grau, mas o tribunal deu provimento parcial à apelação, assegurando-lhe 50% de uma fazenda, metade de dezenas de terrenos e o rateio dos saldos bancários e dos semoventes. A câmara determinou que a liquidação se fizesse por artigos.

Baixaram os autos, mas o juiz se enganou, determinando a perícia por arbitramento. O laudo arbitrou para a “semi-companheira” um bom dinheiro.

Só então o bispado impugnou, exigindo nova perícia, para que a liquidação se fizesse ´por artigos´ – como o tribunal determinara. Um jovem engenheiro foi designado para a nova perícia. Ainda que eficiente, ele desconhecia as diferenças entre ´liquidação por arbitramento´ e ´liquidação por artigos´.

Duvidoso, o engenheiro dirigiu-se, ao juiz, que foi professoral: “Se verdadeiras as respostas do laudo anterior, aproveite-as integralmente. Mas mude o introito, escrevendo que está apresentando uma ´liquidação por artigos´. E repita essa expressão umas três ou quatro vezes no laudo”.

Assim foi feito. A nova ´liquidação por artigos´ foi apresentada, a perícia foi homologada e as partes não recorreram. A “semi-companheira” do padre finalmente recebeu o quinhão assegurado pelo tribunal: um pouquinho mais de R$ 5 milhões.

“Não é uma fortuna como os propinodutos brasilienses, mas equivale a 10% da dinheirama que a Polícia Federal encontrou no bunker baiano” – comparou a rádio-corredor da OAB local.

Amém!


Comentários

Banner publicitário

Notícias Relacionadas

Charge de Gerson Kauer

  O enterro da sogra que não morreu

 

O enterro da sogra que não morreu

A inusitada abordagem no plantão judicial forense. Como autorizar o funeral de uma provecta idosa, de aparência taciturna, que – como manifestação de última vontade - deseja ser sepultada no sítio em que reside? O texto é de Dirnei Bock Hendler, servidor judicial estadual (RS)

Charge de Gerson Kauer

A fama do João Grande

 

A fama do João Grande

Era uma ação penal contra um homem que estaria ofendendo e ameaçando a ex-esposa. As desavenças ocorriam porque ela postava, nas redes sociais, que o ex-marido vivia sempre na casa do João Grande, famoso na cidade gaúcha por ser bem-dotado.

Charge de Gerson Kauer

O gaúcho caloteiro

 

O gaúcho caloteiro

A difícil intimação de um fazendeiro, já conhecido no meio forense, como o Senhor Caloteiro. O êxito da diligência só acontece porque, no esconderijo, o devedor é acometido de coceira causada por urtiga.

Charge de Gerson Kauer

   A experiência dos velhinhos

 

A experiência dos velhinhos

Segundo a cartilha do banco, os saques mínimos no atendimento presencial seriam de R$ 200. Saiba como a idosa senhora - mãe de um advogado e avó de um estagiário do tribunal - convenceu o caixa de que ela tinha direito líquido e certo a sacar apenas R$ 50.

Charge de Gerson Kauer

Quando o suposto amor vira negócio

 

Quando o suposto amor vira negócio

O cliente, à hora da saída do motel, acelera o carro, derruba a cancela e se vai em desabalada fuga. Saiba porque, em Juízo, o tresloucado gesto do homem comove o juiz e obtém simpatia do dono do estabelecimento de hospedagem.

Gerson Kauer

Perfume de segunda categoria

 

Perfume de segunda categoria

Após presidir a audiência de ação penal relativa a roubo à mão armada ocorrido em uma loja de perfumes, o elegante juiz é surpreendido com a pergunta desferida pela vítima: “Doutor, o senhor tem compromisso para hoje à noite?