Ir para o conteúdo principal

Edição de terça, 9 de agosto de 2022.
(Próxima edição: sexta dia 12.)

Semelhanças entre um juiz e um chapista de carnes



Imagem da Matéria

Charge de Gerson Kauer

Por Maurício Brum Esteves, advogado (OAB/RS nº 84.287).

mauriciobrumesteves@gmail.com

Na minha humilde concepção, acreditava que a vida de um chapista se resumia em ouvir qual pedaço de carne o cliente gostaria que lhe fosse servido, e, simplesmente, colocar o respectivo pedaço no prato do cidadão.

Se o chapista fosse um juiz de direito, seria algo como a famosa subsunção da lei ao caso concreto. Em outras palavras, identificar a letra fria da lei, e, meramente, aplicá-la ao caso concreto. Ou, buscar o pedaço de carne, e colocar no prato. De forma simples, reta e estreita, sem margem a qualquer divagação filosófica ou (pseudo) intelectual.

No que tange ao Direito, hoje sabemos serem inúmeros os desafios na aplicação da norma, ao contrário do que se acreditava durante o positivismo jurídico. E, para meu espanto, a mesma constatação é válida para o chapista.

Não se trata unicamente de selecionar o pedaço que o cliente pediu e colocá-lo no prato: a missão vai muito além!

Na verdade, é preciso primeiro entender, na mesma medida em que o emocional das pessoas que procuram o Judiciário está comprometido - em razão de conflitos de interesses – que as pessoas que buscam o chapista de carnes também estão com seu emocional comprometido, em razão da fome que as tira do pleno controle de suas emoções.

Assim, tanto o juiz como o chapista lidam com pessoas emocionalmente comprometidas, e esperam que suas expectativas sejam atendidas, seja ela uma sentença ou um pedaço de carne.

Hoje, por exemplo, uma senhora endereçou a seguinte “petição” ao chapista:

- Senhor, quero o pedaço mais macio que tiver. Ah, bem passado, por favor!

Por mais que possa parecer um contrassenso impossível um pedaço de carne ser ao mesmo tempo “bem passado” e “macio”, o atencioso chapista escolheu, com atenção, o que mais parecia atender às expectativas da senhora. Antes porém que a carne aterrissasse no prato da cliente, entretanto, o chapista ouviu:

- Não, não, senhor! Esse pedaço, não! É muito grande! Um menorzinho, por favor!

De tanto ouvir inúmeros pedidos desta estirpe, o resignado chapista de carnes nem mais dava ouvidos ao que os clientes realmente pediam. Em alguns casos, juro que ouvi o cliente pedir um simples pedaço de frango grelhado, mas lhe foi servido um pedaço de polenta. E, antes que esse cliente pudesse reclamar do serviço que lhe foi prestado, o excesso de pedidos de outros que aguardavam o atendimento do chapista, acabou “obrigando-o” a se resignar com a polenta mesmo.

Confesso que já recebi de inúmeros juízes de direito, em diversas oportunidades, um pedaço de “polenta”, ao invés do “frango grelhado” que solicitei. O excesso de processos, de filas e de causos é sempre alegado para justificar o injustificável atendimento, da mesma forma como ocorreu, agora, com o chapista.

E, por mais que alguns digam que a “polenta” pelo “frango” - tanto no que tange ao cliente do chapista, quanto do juiz de direito - deu-se pelo fato de que ambos os clientes não foram felizes e claros o suficiente em suas petições, em nada altera o fato de que ambas as profissões, juiz de direito e chapista, são semelhantes.

A única diferença, na verdade, é que o chapista de grelhados sabe que está lidando com pessoas que buscam a melhor “solução” para suas fomes.

Já o juiz de direito parece acreditar estar lidando com algo abstrato e etéreo, que não comunga com a vida real. Afinal, é apenas mais um processo...

 


Notícias Relacionadas

 

O adultério salvador

Charge de GERSON KAUER

O adultério salvador

A história do bem sucedido empresário quarentão, que escapou da morte na tragédia da TAM, 15 anos atrás. Foi obra dos encantos do “anjo do voo JJ-3054”, uma bem sucedida profissional liberal porto-alegrense.

 

Consulta ginecológica à moda romana

Charge de GERSON KAUER

Consulta ginecológica à moda romana

Ela era uma mulher interessante, sem exuberâncias, estava sempre perfumada, usava saltos altos, cabelos bem penteados. Um dia, ela foi ao consultório de um ginecologista que só atendia “particular”. O recôndito era decorado com objetos típicos das antigas milícias romanas.

 

Uma comarca só de advogados

Charge de GERSON KAUER

Uma comarca só de advogados

Um advogado, um juiz e um promotor conversam sobre a rotina forense, o congestionamento de cartórios, a precariedade de funcionamento dos JECs, as dificuldades para operar o processo eletrônico. “Eu exijo morar num resort” – pede o magistrado. “Eu quero uma ilha que me possa fazer lembrar o Éden” – pretende o representante do Ministério Público...

 

A suprema vibração

Charge de GERSON KAUER

A suprema vibração

A segurança do STF resolveu aplicar o que seus agentes chamam de “cana dura”. É a dica que significa ser minuciosamente exigente na revista dos pertences pessoais de todos os que chegam – mesmo os mais conhecidos e idôneos frequentadores. Vai daí que...

 

Serviços sexuais insatisfatórios

Charge de GERSON KAUER

Serviços sexuais insatisfatórios

Granjeiro do interior gaúcho, após tratar de assuntos comerciais em Porto Alegre, deu uma esticada nas bandas da avenida Farrapos. No local escolhido, sentou-se, pediu um uísque, e outros mais... A percanta combinou o preço e garantiu a excelência da voluptuosidade que prestaria...

 

Pamonha jurisdicional

Charge de GERSON KAUER

Pamonha jurisdicional

Na petição de apelação, o advogado embutiu um recado sutil: “A advocacia vem sendo desrespeitada por magistrados que não se dão ao trabalho de analisar os pleitos que apresentamos. Como somos tratados como pamonhas, informo que gostosas receitas desta iguaria oriunda do milho estão facilmente disponíveis na internet”.