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Edição de quinta-feira ,14 de novembro de 2019.

Não dá pra querer



Contador de causos

Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria


Por Afif Simões Neto,
juiz de Direito (RS)


Com o visto de permanência expirando, a gente naturalmente vai ficando apoderado de zangas, rabugices e mequetrefes. Começa a implicar com uns troços sem fundamento, perde de vez a paciência com a gurizada, diz o que não devia, ouve o que não quer e atura o que não precisa.
 
Para completar, ainda acha que o mundo não desvira mais as patinhas de trás. E são detalhes que vão tirando a nossa conformação abúlica.

Por exemplo: por que colocar o nome dos filhos de Carolina, Cristina, Gabriela, Luciana, João Carlos, Rafael, se logo ali adiante -  nem precisa esperar o batismo -  serão chamados pelos próprios pais de Carol, Cris, Gabi, Lu, Joca, Rafa? Em sendo certo que a corruptela vingará, já atraca desde logo o diminutivo lá na certidão de nascimento. Pelo menos uma grande vantagem haverá disso tudo: eles não precisarão atravessar a vida explicando aos atendentes de crediário que o certo é Caroline, e não Carolina, Luciana, e não Luciane. Sem falar que seus pequenos nomes não ocuparão espaço na coluna social do periódico, que tanta felicidade espalha aos que nela aparecem, podendo ser citados mais de uma vez no mesmo colunário.

Outra realidade que não consigo entender direito: o bacana metido a caçador de javali tem que ir até Herval, ninho do dentuço e cidade que fica bem depois de Pelotas e um pouquinho antes de o mundo dar adeus aos que ficaram; leva uma tarequeira na bagagem, incomoda-se com a mulher, que tinha programa bem mais civilizado, arrisca o pelego socado no brejal e, quando dá a sorte de pegar o mamífero, tem ainda que deixá-lo dois dias no tempero, virando o selvagem a cada meia-hora, e o cheiro de alho com vinagre tomando conta da casa e do nasal. No final do churrasco, recebe dos comensais puxa-sacos o tão esperado elogio:

- Ficou tão bom o assado que até juraria que era carne de porco!

Vê se o agastado observador não tem razão de pensar:

- Pô, se foi pra passar todo esse trabalho, por que o anfitrião - leia-se pato - não assou logo um porco?

E tem aquele sujeito que viaja quilômetros e gasta o que não tem, só para tirar uma charmosa lichiguana em Gramado e Canela e poder mentir aos amigos que viu a Luma de Oliveira com o coxaral de fora, comendo fondue de chocolate num barzinho da avenida.

Procedimento menos indecoroso já levou muito semovente a abichar nos hospícios da Capital. Se o negócio é aguentar frio e se gripar, sairia mais em conta reunir a família, a sogra junto, é lógico, puxando a ponta, e pernoitar só de ceroula em agosto no alto de uma coxilha qualquer, de preferência em noite de geada grande, para fazer de conta que é neve...

A PALAVRA DO LEITOR

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Sua manifestação será veiculada em nossa próxima edição.

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