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Porto Alegre, terça-feira, 11 de maio de 2021.
(Próxima edição: sexta-feira, 14).
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Hermeneuta na UTI



Arte EV – meramente ilustrativa - sobre foto de Chris Ryan / iStock

Imagem da Matéria

Em desabalada carreira, paramédicos adentram o hospital com uma paciente em estado crítico. Eles reportam a situação ao médico intensivista:

- A paciente é advogada, 40 anos, divorciada, com dois filhos em idade escolar. Está se contorcendo de dor, tem espasmos, mas não descobrimos o que há de errado.

O intensivista pede à paciente que faça um esforço para explicar o que havia acontecido.

- Falência em múltiplos órgãos. Físico paralisado... – diz ela, quase sem forças.

- Façam uma ecografia dos órgãos dela - determina o médico à sua equipe. E testem seus reflexos!

- Tudo normal, doutor! – informa uma enfermeira, poucos minutos depois.

A paciente pronuncia mais algumas palavras:

- Infecção, vírus, paralisia total, sem fôlego. Doutor, libera o alvará, libera o alvará! – e repete o pedido mais algumas vezes, com voz trêmula.

- Ela está delirando! Preparem os respiradores! Possível caso de Covid-19 - avalia o médico.

- Doutor, a oxigenação está normal - insiste a enfermeira.

- Cuidar meus filhos... gota... auxílio-saúde... – insiste a paciente, antes de perder a consciência.

O médico matuta durante alguns segundos e expressa sua avaliação:

- Ela acha que não vai voltar para casa e preocupa-se com a saúde dos filhos.

Em seguida, ele testa a circulação das pernas da paciente, mas não constata gota.

- Chamem o advogado do hospital! - comanda o intensivista. Talvez ele saiba algo sobre esse tal de alvará.

O hermeneuta, então, adentra a UTI e abre um sorriso, tão logo lhe relatam o caso.

- Isso é crise de ansiedade. Todos os advogados estão passando por isso - diz o causídico, com toda a tranquilidade.

- Mas e quanto aos sintomas que ela descreve? Falência de órgãos, físico paralisado, vírus, fôlego, gota etc.? -  insiste o médico.

- Ela está falando do Judiciário! Com a falência dos órgãos jurisdicionais, os processos físicos, que normalmente já estão no fim, com alvarás por serem expedidos, estão sendo digitalizados lentamente.

O causídico do hospital relata que, depois de um ano paralisados por causa da pandemia, em vez de dar andamento aos processos, alguns juízes simplesmente determinaram que os advogados promovam sua digitalização, quando os fóruns reabrirem, sabe-se lá quando...

O advogado também informa que, para piorar tudo, um vírus de computador infectou o sistema do TJRS, paralisando também os autos eletrônicos.

- Inobstante – prossegue o advogado – o Judiciário Gaúcho ainda usurpou a competência do Poder Executivo, proibindo as aulas presenciais. Assim, advogadas como esta pobre paciente, que são mães, ainda têm que administrar os filhos com aulas em casa!

-E quanto à gota? - indaga o médico.

- A gota é que, em meio a tudo isso, servidores e magistrados - inclusive os aposentados - ainda receberão auxílio-saúde às custas dos contribuintes.

Percebendo tratar-se de uma questão de saúde pública, o médico telefona para o presidente do tribunal para reportar o caso, indagando sobre uma possível solução para o problema.

Surpreso com a ligação, o presidente da corte responde com outra pergunta:

- Já tentaram Rivotril?


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