Ir para o conteúdo principal

Porto Alegre, terça-feira, 11 de maio de 2021.
(Próxima edição: sexta-feira, 14).
https://www.espacovital.com.br/images/escreva_direito_2.jpg

A chatice dos chavões



Arte EV sobre imagem Camera Press

Imagem da Matéria

Acatando sugestão do advogado Carlos Alberto Bencke, que é consultor honorário do Espaço Vital, registro aqui minha repulsa ao uso cada vez mais difundido de palavras desgastadas pelo emprego excessivo ou pelo sentido equivocado ou mesmo vazio, constituindo-se em verdadeiros chavões.

Por que chavões? “Chavão” é aumentativo de “chave”, passando o significado de chave tão poderosa que abre qualquer porta. Apresento alguns exemplos e convido os leitores a identificar outros casos:

 Vimos por meio deste: Sem contar que se trata de informação óbvia, de que o leitor toma conhecimento no momento em que recebe a mensagem, é exemplo perfeito de chavão porque serve para abrir qualquer porta, ou melhor, para iniciar qualquer correspondência. Apesar disso, ainda é encontrada em muitas correspondências e iniciais de processos. Há variantes menos votadas, mas igualmente viciadas: Esta tem por finalidade; Vimos ao seu encontro; Dirigimo-nos a V. Exa.; entre outras.

 Bastante: O sentido original de “bastante” é suficiente, como em “bastante procurador”, “é o bastante para comprovar a veracidade dos fatos”. O equívoco consagrado é atribuir-lhe o significado de “muito”. Em qualquer boletim de reportagem de rádio e de TV, em poucos minutos, o repórter expressa essa palavra cinco ou seis vezes: choveu bastante, está bastante frio, o movimento é bastante grande, a rua está bastante esburacada, a população está bastante irritada, e outros muitos bastantões. Ou seja, ouve-se “bastante” bastantes vezes, isto é, muitas vezes.

 Valeu: Mesmo que não tenha valido para nada, o cidadão diz “valeu”. Como diz o Dr. Bencke, “valeu vale pra tudo”.

 Fazer colocações: Outra expressão que se tornou insuportável, sendo usada para fazer observações, objeções, argumentações e qualquer assemelhado. Coloca-se tudo em qualquer lugar.

 Com certeza: Outra expressão muito usada apesar de não dar certeza de nada. Um dia dirão: “Com certeza que não tenho certeza de nada”.

  • Ainda sobre “paciente / réu”

Em edição anterior, abordou-se aqui o uso da palavra “paciente” em vez de “réu”, em função da manifestação de um leitor contrariado com esse uso. O Dr. Thomaz Thompson Flores Neto, a quem agradeço o oportuno esclarecimento, escreve afirmando que o uso de “paciente” se justifica no habeas corpus por não se tratar de ação penal típica, mas que é conhecido como “remédio heroico” impetrado “em favor de quem esteja sofrendo ameaça (ou em risco iminente) à sua liberdade de locomoção”.

Consultado a respeito, o Desembargador Irineu Mariani, do TJRS, concorda com o Dr. Thomaz, informando que usa “paciente" apenas no habeas corpus, porque o caso envolve “alguém que sofre ou está na iminência de sofrer coação ilegal, isto é, está em situação similar à do doente na medicina”. Para embasar sua justificativa o Dr. Mariani cita Plácido e Silva, segundo ele autor do melhor vocabulário jurídico já publicado, transcrevendo parte do que afirma o dicionarista no verbete "PACIENTE. Do latim ‘patiens, patientis’ (que sofre ou que suporta), é vulgarmente tomado no sentido de vítima ou aquele que vai sentir o efeito da ação de outrem”.

Portanto, entendo que assim fica definitivamente esclarecido: “paciente” é palavra a ser usada apenas no habeas corpus. Nos demais casos, a palavra escolhida deve ser “réu” (“ré” no feminino). 

  • Viagem / Viajem

Pergunta que me fazem com frequência: por que o substantivo “viagem” é grafado com “g”, enquanto a forma verbal “viajem” é escrita com “j” (“É bom que vocês viajem”). Irritados, às vezes acrescentam: “Por isso que é impossível aprender português”. É certo que o português não é língua fácil, como também é certo que não existe língua fácil. Eu diria mais: não é possível ter o pleno domínio de qualquer idioma.

Mas, viajemos um pouco: o substantivo “viagem” é com “g”. A partir dele formou-se o verbo “viajar”, em que foi necessário mudar o “g” da raiz para “j”, em respeito ao princípio constitucional da língua portuguesa que determina escrever de acordo com a pronúncia; no entanto, em toda a conjugação do verbo “viajar” não encontramos razão para mudar de “j” para “g”, nem mesmo na terceira pessoa do plural do presente do subjuntivo, que é “viajem”, com “j”. Portanto, “viajem”, e façam boa “viagem”.


A PALAVRA DO LEITOR

Se você quiser esclarecer, comentar, detalhar, solicitar correção e/ou acréscimo, etc. sobre alguma publicação feita pelo Espaço Vital, envie sua manifestação.

Mais artigos do autor

Pixabay/Arte EV

Paciente ou réu?

 

Paciente ou réu?

Cirurgião gaúcho manifesta contrariedade com respeito ao uso indevido, mas generalizado no Direito Penal, da palavra paciente com o sentido de réu.