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Edição Extra, interrompendo, em 11.1.2020, as férias da Equipe Espaço Vital
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O meu advogado se vendeu!



Imagem: Freepik - Arte EV

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As suspeitas da parte em face do seu advogado sempre existiram. E com mais frequência quando o representado não possui muitas luzes culturais.

Qual de nós já não ouviu uma frase ferina, tipo “O meu advogado se vendeu” ?  Isso me incomodava tanto que qualquer insinuação provocava uma reação raivosa.

Toca o telefone no escritório, a secretária atende; ela abre a porta da minha sala, relatando:

- O seu Pedro, aquele da ação contra a empresa X, quer saber qual é o nome do juiz”...

Pego o telefone e inicio com firmeza:

- Qual é o problema? Vais falar com o juiz? 

Do outro lado, com muita calma o cliente com voz inalterada esclarece:

- Doutor, não é nada. Só quero mandar fazer um trabalho de umbanda com o nome dele, colocar no mel...

Algumas vezes recorri à lógica diante da advertência de que a parte contrária tinha muito dinheiro e que tentaria comprar advogado e juiz, ao que eu explicava: “Quanto o senhor acha que vale a sua causa? No máximo três mil reais. E o quanto teriam que pagar a todos para ´comprarem o êxito´ e, ainda, considerando que cabe recurso pois estamos no primeiro grau”...

De outra feita, um ainda jovem advogado aguardava no saguão junto ao cliente o início dos trabalhos; o magistrado estava atrasado. Avistei a advogada da parte oposta, antiga amiga de família, dentro da sala, folheando os autos. Ingressei para saber se ela teria provas; e ela indagou-me se era possível um acordo.

Ao sair, sou interpelado pelo cliente:

- Doutor, quero trocar de advogado.

Pergunto-lhe a razão, ao que ele me responde:

- O senhor entrou naquela sala, vi que a advogada da empresa estava com o meu processo nas mãos e vocês conversaram entre sorrisos...

Diante daquela situação não havia nada a fazer. Nenhuma explicação seria suficiente.

Na época, eu alimentava um sentimento de glorificação da classe operária e das suas virtudes transformadoras. Pouco a pouco fui reconhecendo a realidade: a ignorância de um povo que pouco acesso tem à educação cidadã e o mar de falcatruas que nos cerca, inclusive aquelas promovidas pelo Poder Público.

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Decorrido algum tempo, um amigo com formação universitária – engenheiro – dono de uma construtora, me liga no sábado pela manhã em pânico, buscando orientação:

- Tchê, fui no Água na Boca e flagrei a minha advogada dançando com o advogado de uns reclamantes...

(Um parêntese, para quem não é daquela época: o Água na Boca era a casa noturna da moda: presença de jovens, lindas mulheres, gente de sucesso, emergentes, etc.)

Com isso percebi que o problema era muito maior do que eu imaginava.

Também há profissionais que se valendo da ignorância dos clientes aproveitam para enganá-los e isso em todas as áreas.

Enfim, nenhuma profissão, religião ou atividade em nosso país está imune àqueles que destorcem as suas finalidades com propósitos inidôneos. É uma pena, mas fazer o quê?


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