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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 23 de outubro de 2020.

Ângela, a mulher de verdade



Imagens: Freepik - Montagem: Gerson Kauer

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      A sentença acolheu a tese contestatória de que “a existência de um relacionamento sexual longo, periódico e de conhecimento público não basta para provar a união estável, ainda mais quando o homem jamais afirmou sua fidelidade”. Assim, o  juiz julgou improcedente o pedido feito pela mulher. E rechaçou a tese de que os parceiros tivessem tido a intenção conjunta de constituir família.

      A apelação chegou ao tribunal. O relator confirmou a improcedência da ação. “Como ambos eram livres e desimpedidos - ela solteira e ele divorciado - permaneceram administrando separadamente suas vidas, tanto que mantinham residências separadas e até mesmo os ranchos em supermercado eram pagas individualmente”.

      Detalhe: nas compras  – que às vezes faziam juntos – sempre o gasto maior era pago por ela. Talvez o médico fosse pão-duro...

      O revisor foi na mesma linha: “Está comprovado que o médico manteve outros achegos durante o período em que durou o relacionamento com a professora - com o que a relação não ultrapassou a seara do namoro, ora firme, ora escorregadio, às vezes sem exclusividade”.

      A desembargadora vogal divergiu. “Essa mulher deveria ser chamada de Amélia e não de Ângela como está aposto em sua certidão de nascimento”. O voto reconheceu “a existência de provas inequívocas da união estável, tanto que ela pedira licença-prêmio no magistério para cuidar do ex-companheiro durante o período em que ele esteve doente - comprovando assim o envolvimento familiar. Ela não tinha a menor vaidade, ela era mulher de verdade”.

      Ante o irreversível 2 x 1, encerrado o julgamento, a desembargadora ainda procurou consolar a emocionada e chorosa mulher - ali presente, sentada na terceira fila, perdedora da ação.

      Dirigindo-se a ela, resumiu facetas da história musical de 1942: “Os versos da música Amélia consolidaram na sociedade uma noção de pessoa submissa e companheira do homem em todas as dificuldades. A tal ponto de ser integrada ao vocabulário em diversos dicionários com o conceito de mulher que aceita toda sorte de privações e/ou vexames sem reclamar, por amor a seu homem”.

      E arrematou: “Faço à mulher Ângela, aqui presente, minha homenagem que é pessoal e extra autos, não devendo todavia - por se tratar de matéria estranha à lide - constar do acórdão”.

      Por cautela, o presidente da câmara logo atalhou: “Anuncio o julgamento do próximo processo da pauta”.


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