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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 10 de julho de 2020.
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A audiência que não terminou



Foto: Felipe Barra ASCOM-MD - Arte EV

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Fui promovido do cargo de juiz substituto para titular da Junta de Conciliação e Julgamento de Santa Rosa (RS). Recebi com simpatia, pois embora o acaso, me pareceu na intimidade, uma homenagem à minha mãe que lá havia nascido.

Passei a residir no apartamento do prédio da Junta, ao lado de um ruidoso bar dançante que, às quartas e quintas, tinha música ao vivo. Eu era obrigado a dormir, ou tentar, com as janelas fechadas.

Já na primeira noite, em pleno verão, descobri que Santa Rosa é a cidade mais quente do Rio Grande do Sul. Ao acordar, sem pensar duas vezes, comprei um aparelho de ar-condicionado. Santa providência!

Como ex-presidente da AGETRA – Associação Gaúcha de Advogados Trabalhistas – conhecia os advogados locais que, aliás, sempre me trataram muito bem. Repetidamente na sede da OAB rememorávamos histórias da advocacia.

Destacava-se uma, ocorrida com um colega que sempre respeitei muito: o Burmeister. À época, a Junta era presidida pelo juiz do Trabalho Luiz José Guimarães Falcão e, que depois, veio a presidir o TST. Além de todas as suas qualidades é um baita colorado.

Estávamos no pós-64, portanto em plena ditadura militar. O Burmeister, advogando em Santa Rosa, caracterizava-se como um ferrenho defensor das liberdades democráticas, atiçando pelas suas opiniões o comando militar local.

Havia uma telefonista que operava a mesa na cidade. As ligações eram feitas pelo seu intermédio. Plugava os cabos nos respectivos ramais conectando as residências e estabelecimentos. Naquela época, as telefonistas podiam permanecer na linha, escutando o conteúdo das conversas. Sabiam de tudo e de todos.

Graças a isso foi que um outro advogado, muito amigo do Burmeister, teve notícia de que estavam “armando” a sua prisão. Ele seria levado para prestar depoimento no quartel e de lá não sairia.

No dia seguinte o Burmeister comparece a uma audiência e tudo parecia normal. Lá pelas tantas, ingressa na sala um tenente, acompanhado por alguns soldados. O juiz Falcão, fixando o olhar no tenente, indaga: “O que o senhor deseja?”

A resposta é imediata: “Estou em missão para conduzir o advogado ao quartel. Cumpro ordens superiores”.

Falcão, com calma e perspicácia, toma às mãos a CLT, busca um artigo e sacramenta: “Entendo a sua missão, mas está aqui na CLT, legislação em plena vigência, que após iniciada a audiência ela não poderá ser interrompida. É a lei!”

Foi a audiência mais longa que se teve notícia, consumiu a manhã e boa parte da tarde.

Cansados pela espera, o tenente e os componentes do pelotão retiraram-se. E o Burmeister, não deixando escapar a oportunidade, partiu rápido de Santa Rosa.

Muitos anos depois, tive a oportunidade de autorizar a construção de uma sala adequada aos advogados, batizada com o nome de Luiz Lopes Burmeister e que exibia a sua foto.

A audiência não teve fim, mas as vidas apesar de tudo continuaram. Cada um ao seu modo - e graças a esses atos que exigiam coragem - seguiram em frente.


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