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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 10 de julho de 2020.
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A evolução do significado



Imagem Freepik - Montagem EV

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O significado das palavras não é permanente, pois acompanha variados contextos que levam em conta a evolução do homem, da sociedade e da cultura como um todo. Seu uso pode encolher, como pode expandir-se, às vezes mais, outras menos. Outras tantas, ele se modifica, adaptando-se às conquistas do conhecimento humano. Há também situações em que o comportamento humano interfere de forma significativa.
Quanto se recorre a dicionário para obter o significado de determinada palavra, é preciso levar em conta esses e outros fatores, sempre considerando que a informação ali obtida não é precisa; muitas vezes os dicionários registram como sinônimos palavras de significados semelhantes, mas não necessariamente iguais, pois não levam em conta o contexto em que são usadas.

Vamos analisar alguns casos:
Vilão: Era o nome que se dava ao morador da vila, como se chamava o núcleo central das cidades antigas. Em virtude do comportamento de alguns moradores das vilas de enganar os habitantes da zona rural, a palavra passou a ter o significado pejorativo de hoje.

Acender: O sentido original e único era o de atear fogo, a forma primária de gerar luz. Com o advento da energia elétrica, em que não se emprega fogo, a palavra se adaptou ao invento, passando a significar também ligar.

Embarcar: Derivando de barca, esta palavra tinha o sentido único de ingressar na barca, meio mais antigo de transporte de longa distância. Com o advento do automóvel, do ônibus, do trem e do avião, continuamos embarcando.

Ouvir / Escutar: Os dicionários em geral dão as duas palavras como sinônimas, mas na realidade escutar é apenas a tentativa de ouvir, é acionar os órgãos da audição, enquanto ouvir consiste na concretização da percepção do som, da audição de fato.

Estrela: Aí está um exemplo definitivo de ampliação e difusão do significado. Do sentido original de se referir ao ponto luminoso do firmamento, a palavra passou a significar tudo aquilo que brilha, seja real ou imaginário. Existe a estrela em qualquer atividade humana: cinema, esporte, área de negócios, Direito, magistério, jornalismo, etc. Até mesmo em momentos de dificuldade as estrelas aparecem, o que ocorre quando alguém, por exemplo, leva uma pancada que provoca muita dor, dizendo-se que viu estrelas...

Com a palavra o leitor

1. A advogada Christa Wanke, de Santa Catarina, dizendo-se revoltada com a reforma ortográfica de 2008, afirma que não pretende deixar de escrever a palavra “idéias” sem acento, assim com continua usando os hifens nas palavras em que foram retirados. Encerra a mensagem com um viva à língua portuguesa.

Pessoalmente, também não concordei com as mudanças introduzidas, que acabaram gerando muita insegurança, sem contar que produziram custos exorbitantes e benefícios quase nulos. Aliás, em Portugal e nas ex-colônias portuguesas da África não se adotou a reforma na prática, acabando com sua grande razão de ser, que era a unificação da grafia entre o Brasil e os demais países que têm no português sua língua oficial. Espero que tenha sido a última vez que se mexe na grafia.

2. Hugo Schirmer, escrivão aposentado de Santa Maria (RS), apresenta uma situação recorrente e difícil de resolver: “Recebo trabalhos oriundos de Portugal. O que faço? Completamente diferentes. Também tenho trabalhos em ‘brasileiro’, escritos antes e/ou depois de 2008, em que é usado trema, hífen indevido, enfim vem de tudo. Fazer o quê? Mexer no trabalho alheio? Modificar seu sentido?”
Quando se transcreve texto de outro, alguns cuidados devem ser assumidos: 1. Nunca mexer no significado. 2. Quando se trata de texto antigo, em que, por razões históricas e/ou culturais, é interessante manter a grafia da época, também não se deve mexer. 3. Tratando-se de texto originário de Portugal ou de outro país de língua portuguesa que não o Brasil, em regra recomendo manter a grafia original. 4. Nos demais casos, em que não há razão para não atualizar a grafia, por questões pedagógico-didáticas, deve-se proceder à correção, mas, repita-se, sem jamais interferir no significado.


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