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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 23 de outubro de 2020.
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Que não morra a esperança



Donde nada se espera – dizia o Barão de Itararé – daí mesmo é que não sai nada. Por vezes, nada sai também donde se espera. Os requerentes e os defensores do impedimento da Presidente talvez já não esperassem a instauração do procedimento, tais e tantas foram as delongas, negaças e negociações esconsas. Talvez por isso mesmo, o principal de seus signatários manifestou certa surpresa com o desfecho.

Sem adentrar o mérito, o que (gostemos ou não disso) cabe ao Congresso Nacional e a mais ninguém, trata-se certamente de um processo muito traumático, com potencial gigantesco de repercussões em todas as áreas da vida nacional e talvez de algum dano institucional. Mas é remédio previsto na Constituição e na lei. A analogia conhecida com a posse da bomba nuclear (boa para ter, mas não para usar) é imprópria: o que não se pode usar não serve a nada, nem a dissuadir.

Portanto, como alhures escrevi, o impeachment não é uma aventura nem um golpe; é instrumento institucional devidamente regulado para ser usado excepcionalmente, mas não para função meramente decorativa ou sucedâneo da eleição. Problemático, sim, pela sua carga de potencialidade negativa, mas necessário para as situações em cuja previsão foi estatuído.

Concretamente, o lado bom é que a admissão do processo, só por si, vem sacudir o marasmo e a mesmice do nosso quadro político. Ele já se ia tornando insuportável pela repetição dos mesmos erros, pela politiquice mais rasa e repugnante, pela falta de novidade e até pela interminável sucessão dos enxurros de lama (metafóricos ou literais) que nos têm assolado.

A invariável repetição das mesmas figurinhas carimbadas do noticiário, a reprodução sem fim dos mesmos escândalos e roubalheiras, o periódico retorno dos mesmos malfeitores que o sistema já expelira – tudo convergia para a generalizada descrença e desânimo da população, que, como o Barão, já sabia que daí nada de novo ou diferente poderia sair. Quando alguma novidade aparecia, era algo como um Cunha para somar-se aos Calheiros, Barbalhos e colloridos da vida.

Não importam muito os motivos (péssimos, ao que tudo indica) da decisão tomada pela instauração do procedimento. Se algum otimismo ainda for possível, será o de pensar que a iniciativa representa uma sacudida na pasmaceira geral e na abulia do povo, que parece já não encontrar forças sequer para sair à rua e protestar. E um alerta aos espertos de sempre, que acham meios de extrair vantagens tanto do pior como do melhor.

Se os caminhos tentados levaram ao que hoje temos, é hora de pensar em outro. Não nos podemos conformar à ideia de que o Brasil é só Petrolão, Zelotes, políticos e servidores corruptos e empresários corruptores. Há pessoas de bem, gente que se mata de trabalho para sobreviver, samaritanos que ninguém vê porque não fazem marketing, cidadãos que procuram o dono para entregar a carteira achada no ônibus.

A vez dos políticos passou, a do homem armado como solução extralegal também. Eles não foram capazes de solucionar ou sequer equacionar os históricos e enormes problemas do País. A hora é dos estadistas, de pessoas capazes de olhar além de seu umbigo, do seu quintal e do seu patrimônio. Se os encontraremos, não há como saber ainda; sequer sabemos onde procurá-los. Mas é preciso crer que existem, porque a alternativa é a morte da esperança.

* * * *

(*)

Adroaldo Furtado Fabrício escreve no Espaço Vital quinzenalmente, às sextas-feiras.

Seu próximo artigo será publicado no dia 4 de dezembro


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