Sexo tântrico no entardecer


Era um sábado, seis da tarde, quando bateu o telefone no 190 de uma cidade da fronteira gaúcha. A voz feminina, do outro lado da linha, denotava irritação: “Tem um casal tarado, fazendo sexo na casa aqui ao lado, de tal jeito que está escandalizando as crianças que vieram à festinha de aniversário do meu filho”.

O oficial imediatamente despachou uma guarnição, recomendando “agir com “habilidade”. O sargento, o cabo e uma soldado interromperem a gritaria tântrica. E após interrogarem vários adultos, conseguiram reconstituir os fatos.

Estes foram sintetizados, em ordem numérica, no boletim de ocorrência encaminhada ao comandante do batalhão.

“1 - São duas casas não geminadas, no mesmo terreno, espaçadas por sete metros. Logo depois do ´Parabéns a Você´ da festinha da criança de cinco anos, irromperam da casa vizinha os ruídos de uma relação heterossexual em altos brados.

2 - O apontado senhor Fulano de Tal disse que a intimidade dele com a companheira é feita sob a proteção da privacidade de seu lar, não havendo exposição visual, nem perturbação do silêncio noturno.

3 - A apontada parceira Dona Sicrana fez apologia de sua sexualidade, dizendo que a expressão verbal do prazer é livre, e que ninguém tem nada com isso.

4 - Os pais do aniversariante pedem providências por ofensa à ingenuidade das crianças, perturbação da vizinhança e ameaças que teriam sofrido após as reclamações.

5 - Ante a advertência de que o casal questionado seria levado, sem detenção, ao juiz de plantão, concordaram aqueles em cessar o impasse”.

Ante o inusitado, o coronel comandante do BPM avaliou conveniente informar logo ao diretor do foro e ao promotor da Infância e Juventude. Estes, por sua vez, convocaram outros operadores da cena judicial para uma reunião de análise da conjunção.

Na busca da solução, foi designada audiência para a sexta-feira da semana seguinte. Foram intimados os queixosos, os pais de algumas crianças prejudicadas e o casal “criativo”.  Na solenidade houve o acordo: os parceiros barulhentos concordaram em, no prazo de dez dias se mudar para outro bairro.

A mudança de endereço aconteceu na sexta passada (19). Na cidade só se fala nisso. A vizinhança (do local questionado) não corre mais o risco de ser molestada pela poluição sonora.