Espionagem cibern├ętica: De O Chacal para Pegasus


PONTO UM:

Filmes e romances de espionagem são sempre encantadores e garantem público certo. Um clássico do gênero, que recebeu duas filmagens num período de duas décadas, é o livro do escritor inglês Frederick Forsyth, de 1970, O Dia do Chacal. Sua primeira versão cinematográfica, em 1973, foi fiel ao título do livro e dirigida por Fred Zinnemann que, entre outras maravilhas do cinema, nos legou A Um Passo da Eternidade. A segunda, realizada em 1997, sob o título O Chacal, recebeu a interpretação de Bruce Willes no papel do misterioso criminoso, contratado pela máfia russa para assassinar o chefe do FBI e uma oficial da inteligência russa.

O ex-agente do IRA, contratado pelo governo americano para perseguir o Chacal, foi interpretado por Richard Gere. Dois ícones do cinema hollywoodiano. Uma das curiosidades nas histórias de espionagem é que por vezes torcemos, como leitores ou assistentes, pelo espião, outras pelo agente que o combate.

E não é por menos essa dubiedade. Na Convenção de Haia (1899) só se reconheceu a ilicitude da espionagem se a ação é clandestina ou realizada sob falsos pretextos, ficando excepcionada a conduta quando ostensiva e realizada por funcionários civis ou militares de forma oficial e em tempos de guerra.

PONTO DOIS:

Mas a espionagem vai mais além do que os limites da ficção ou de investidas no curso de uma guerra. E, de certa forma, os novos modelos de espionagem perderam muito de seu encanto, mas ficaram mais invasivos e nocivos. Exemplo disso é o programa Pegasus. Trata-se de uma ferramenta instalada – de forma autorizada ou não – no celular, transformando-o em um verdadeiro espião de bolso. Também computadores podem ser invadidos dessa forma. Quaisquer dados constantes dos arquivos, inclusive fotografias, são repassados para quem instalou o programa.

Ou seja, qualquer um de nós pode estar fornecendo dados que virão a ser utilizados por outras pessoas, mesmo sem saber. Esse programa foi criado por uma empresa israelense de ciber segurança, a NSO Group, abrindo, de certa forma, a caixa de Pandora. De um software – programa que controla o funcionamento de um computador - passou a ser conhecido e utilizado como malware – uma ameaça cibernética. Espalhado pelo mundo, governos, grupos terroristas, toda sorte de organização pública ou privada têm ou terão a seu dispor essa ferramenta para atuar nas sombras, como afirmou o professor Sérgio Amadeu, ex-presidente do Instituto de Tecnologia da Informação e defensor da inclusão digital no Brasil.

Vítimas da espionagem? Qualquer um que não esteja com o espião (se você não está comigo, está contra mim). E o Pegasus já está em pleno vigor no Brasil, embora de difícil comprovação sua contratação até pela ausência de uma regulamentação mais rígida.

Perigo à vista, como diria o famoso robô B9 de Perdidos no Espaço!