Não mais do que de repente...


Primeira semana de março de 2020 - a pandemia ainda era uma suposição distante – há um coquetel do lançamento de um novo produto de argentário banco. Um cliente, notoriamente conhecido por sua falta de memória, toma mais um drinque enquanto conversa, feições depressivas, com os circunstantes.

De repente surge um cidadão de nariz empinado, barriguinha saliente, puxando assunto:

- Olá! A confraternização está boa, não é mesmo?

- Ótima! - responde o primeiro, sem muito interesse.

Mas o recém chegado prossegue:

- Muito prazer, eu sou o Doutor Menezes, magistrado aposentado.

- Olá, Menezes, eu sou o Souza – diz o homem comum.

- Eu me aproximei porque, profissionalmente, a sua feição me parece meio familiar. Acho que já o vi antes. Talvez tenhamos nos encontrado em alguma audiência, ou julgamento.

- Não, não sou advogado!

- Então, quem sabe, o senhor compareceu como autor, réu ou testemunha de algum processo. Será que dei uma sentença que lhe foi favorável ou desfavorável?

- Nada disso! Sou apenas o sério administrador financeiro de uma empresa de telefonia. E detesto fóruns, audiências, juízes, promotores, etc.

O Doutor Menezes pensa alguns instantes e então dispara:

- Espera aí, Souza... Você por acaso era casado com a Helena Guilhermina Aldrovandi de Souza?

O homem se espanta:

- Era sim! Mas nos separamos em 2007! Por que você está me perguntando isso?

E o douto jubilado responde:

- Ah... Eu estava mesmo com a sensação que já tinha dado alguma sentença contra você!... É que eu me casei com ela. Desculpe.

E, de fininho, o excelentíssimo senhor doutor Menezes se afasta. Logo se apruma em roda próxima. Nesta, de repente, vem à baila o tema dos penduricalhos e das férias de 60 dias. O douto jubilado também logo se afasta.

Mera coincidência, no mesmo momento, a cantora – com a moldura musical de um sax barítono – entoa versos de Vinicius de Mores:

“De repente não mais que de repente /

 Fez-se de triste o que se fez amante /

 E de sozinho o que se fez contente /

 Fez-se do amigo próximo, distante /

 Fez-se da vida uma aventura errante”...

O Doutor Menezes bate em retirada. E o Souza segue libando.