Os números que identificam as emissoras de rádio


O Desembargador Irineu Mariani, sempre atento à correção no uso do idioma, lembrou-me de um erro relacionado à comunicação da frequência das emissoras de rádio. Ocorre que elas estão anunciando o fim das transmissões em AM, ou seja, da amplitude modulada, ou onda média, mantendo apenas a modalidade FM, que consiste na modulação em frequência. Inventada em 1933 pelo engenheiro estadunidense Edwin Armstrong, a radiodifusão FM em banda larga é mundialmente utilizada por fornecer som de alta fidelidade na transmissão e recepção de rádio.

Muitas emissoras vinham transmitindo nas duas bandas. A justificativa da manutenção da AM se devia pelo seu mais longo alcance em relação à FM. Com o advento das novas tecnologias de comunicação, o alcance da FM se tornou ilimitado, não se justificando mais a modalidade AM. A saída das emissoras da transmissão em AM é, na verdade, uma antecipação ao plano do governo de, em breve, acabar com essa modalidade, impedindo as emissoras de a seguirem utilizando. Os próprios aparelhos de rádio já sairão das fábricas sem a opção para AM.

Os leitores devem estar se perguntando: o que a língua portuguesa tem a ver com isso?

Ocorre que alimento a esperança de que as emissoras vão aproveitar a mudança para corrigir um erro histórico, resultante da nossa cultura de submissão ao que vem de fora, em especial dos domínios da língua inglesa, que, claro, não tem culpa disso, porque nós é que nos submetemos espontaneamente ao exagero das influências externas.

Esclareço: nas expressões numéricas, o português, assim como a absoluta maioria dos idiomas, usa o ponto para separar os milhares e a vírgula para separar as frações; o inglês faz o contrário: usa vírgula onde usamos ponto, e ponto onde usamos vírgula.

Por exemplo, para expressar dois mil dólares em algarismos, o inglês escreve: U$ 2,000.00, enquanto nós usamos U$ 2.000,00. É aqui que chegamos ao ponto: na identificação das emissoras de rádio, incoerentemente, não seguimos a mesma regra, usando ponto em vez de vírgula: 93.7, 101.3, 94.5, etc. Isso porque o sinal de pontuação a ser usado no caso deve indicar fração (104,5), e não milhar.

Então, nos modelos de automóveis comete-se o mesmo erro ao denominá-los 1.0, 1.6, 2.0, etc.? Não, porque esse ponto indica a potência do motor em milhares de cilindradas, cumprindo, portanto, sua correta função nessas expressões numéricas, ou seja: 1.000 cilindradas, 1.600 cilindradas, 2.000 cilindradas. Trata-se de uma forma lógica e inteligente de abreviar a informação.

Outro uso indevido desse ponto ocorre quando alguém informa sua idade: em vez de dizer que está com 50 anos, diz ter 5.0. Trata-se de forma bem-humorada, que, no entanto, está no terreno da informalidade.