Advocacia ilegal e tentativa de homicĂ­dio contra o idioma


O homem quarentão chegou à delegacia de polícia em cidade interiorana gaúcha, dizendo-se advogado. Ao inspetor que digitava próximo ao balcão, o recém chegado pediu para falar, urgente, com o delegado a quem pretendia, pessoalmente, entregar um requerimento.

Introduzido no gabinete da autoridade, o visitante apresentou o requerimento.

Ao conferir, o delegado notou que a petição tinha erros de português e arranhava questões técnicas de Direito. Então desconfiado, o policial pediu que o visitante apresentasse sua carteira da Ordem. O pseudo advogado respondeu que "havia esquecido em casa".

Mas, pressionado, informou (aliás, inventou) o número de registro que supostamente seria o seu. Garantiu ser formado na Universidade Federal de Minas Gerias, turma de 1995. Logo a polícia descobriu que o tal número de OAB não existia e que o visitante já era respondia, alhures, por falsidade ideológica.

Os erros presentes na petição eram, no geral, de concordância. Nesse contexto, o pretenso advogado pedia “sermos atendidos com brevidade nesse contesto emerjencial".  E foi nesse panorama de escorregões verbais e erros de grafia, que o visitante requereu ao delegado um "hábeas corpos" (assim mesmo - corpos, substantivo masculino, plural) que, no vernáculo, significa "tudo o que ocupa espaço e constitui unidade orgânica ou inorgânica".

O delegado passou um pito no visitante, sugerindo-lhe que “fosse tomar aulas de Português com o professor Paulo Flávio Ledur”. Em seguida, chamado o escrivão, logo passou-se ao interrogatório.

Ao entregar o inquérito no fórum local, por "exercício ilegal da profissão", o delegado ainda fez um comentário ao juiz que o recebeu pessoalmente: "O acusado deveria também ser denunciado por homicídio praticado contra o idioma português”.

Tudo terminou em transação penal.