Páginas da vida com segredo de justiça


Para uma das audiências da manhã, o novel juiz - recém chegado na comarca – agendara o interrogatório de um rapaz preso sob a acusação de tentativa de roubo qualificado com o uso de uma faca. O acusado passa a ser interrogado sobre o crime.

- Doutor, é verdadeira a denúncia. Eu estava em dificuldades financeiras e decidi praticar um roubo. Foi minha primeira vez. Peguei uma faca, fui para uma cidade vizinha e fiquei esperando uma vítima, num entardecer do inverno. Passou um homem jovem caminhando. Celular numa mão, pasta na outra. Decidi que ele seria a minha vítima. Anunciei o assalto. Para minha surpresa, o rapaz me deu um golpe de arte marcial, tomou-me a faca e me rendeu. Acabei apanhando, fiquei imobilizado até a polícia chegar. Na delegacia, descobri que a vítima era um campeão de jiu-jitsu. Que falta de sorte, doutor! Foi minha primeira vez, para nunca mais...

A postura, as feições de vergonha, o modo de sentar, e a linguagem polida do réu surpreendem o juiz, que formula então outras perguntas.

Pelas respostas, o magistrado fica sabendo que o réu é universitário, com matrícula trancada por falta de dinheiro para as mensalidades. Chegara a trabalhar como auxiliar contábil, dois salários mínimos mensais. E que o desemprego era decorrência do fechamento de uma indústria que tivera 220 trabalhadores. A mãe faxineira mantinha a casa; do pai não tinha mais notícias há dois ou três anos.

O juiz termina a audiência, dizendo ao acusado que aquela “falta de sorte” tivesse sido, talvez, uma coisa boa.

- Dar-se tão mal no primeiro assalto pode ter sido um oportuno aprendizado para a sua vida – diz o magistrado, em tom grave de voz.

- Concordo, aprendi que o crime não é uma opção para mim, devo seguir procurando emprego e fazer outra coisa para ganhar dinheiro – admite o acusado.

A liberdade provisória mediante condições é concedida. A pena branda fixada na sentença é inteiramente cumprida. Seis meses depois, o outrora delinquente primário retoma as aulas na Faculdade de Direito, que lhe concede uma bolsa parcial. Ele trabalha de padeiro à noite. E no final do terceiro ano de estudos consegue ser estagiário na prefeitura local.

No mês passado ele recebeu o diploma de bacharel em Direito e vai se inscrever-se no próximo Exame de Ordem. Entre os que torcem por ele está o magistrado estadual, agora já quarentão, jurisdicionando em comarca de entrância final.

Há poucos dias, o juiz segredou ao Espaço Vital: “Estou seguro de que o jovem cumpriu a promessa de não mais delinquir, e tanto ele como eu temos a certeza de que ter ao acaso, como primeira vítima um campeão de artes marciais, não foi um tremendo azar, mas o ato que o preparou para sua redenção”.