Tinga, eu e a velhice


É muito peculiar falar em velhice quando a referência é uma atleta de futebol. Decretar a velhice ou a incapacidade parcial de alguém no auge dos seus 35 anos, em contradição com a expectativa de vida média próxima aos 80 anos, é um paradoxo.

Sempre admirei muito o Tinga, uma liderança positiva de vestiário, um jogador obstinado pelo time, disciplinado e um apoio para os demais seus colegas.

Após a saída do treinador Jorge Fossati, assumiu o Celso Roth. Nunca escondi de ninguém a grande consideração que tenho para com eles. Profissionais, sérios, idôneos e dedicadíssimos.

Logo após um jogo do Campeonato Gaúcho, após a extinção do famigerado “Inter B” tínhamos que voar para o Equador. Em meio ao segundo tempo daquela partida do Gauchão, o Tinga foi substituído. O desconforto gerado foi visível, pois saiu de campo contrariado, chegando a cogitar de não embarcar com a equipe. O embarque como disse, era logo após ao jogo.

Mantive contato com o seu procurador, ponderando acerca das consequências que o ato acarretaria.

Como disse, o Tinga é, além de um cidadão exemplar é um profissional como poucos.

Viajamos todos e não tocamos mais no assunto. Tudo transcorreu bem na viagem.

Após o retorno, quando tudo parecia serenado, chamei o Tinga para conversar. Foi um diálogo franco. Iniciei dizendo que poderia falar de cadeira sobre o avanço da idade e das limitações decorrentes. Disse-lhe ainda que, com certeza ele, um atleta consciente estava sentindo na carne as dificuldades decorrentes do tempo. Que, além disso, no caso dos atletas, havendo muita rotatividade com a chegada outros, isso se tornava flagrante pois, via de regra, os novos estavam na “flor da idade”.

Continuando a conversa, apontei para ele uma outra perspectiva, a de que nós quando mais velhos, temos a possibilidade de amparar mais os outros, servindo de exemplo e prevendo aquilo que já se repetiu diante de nós inúmeras vezes.

Conclui afirmando que de nada adiantaria ficar incomodado com o técnico, pois na realidade a insatisfação é conosco mesmo. Reafirmei que a compensação cerebral, supre em muito a muscular.

Foi uma conversa difícil, com um certo grau de emoção, mas fundamentalmente verdadeira.

Acompanhei por um tempo o Tinga que continuou sendo um atleta e tanto. No Cruzeiro seguiu entrando em campo para fazer a diferença constituindo-se em um ídolo, tal qual no Internacional.

Conto isso, não apenas para revelar uma experiência, mas para afirmar o quanto é difícil adequarmos à idade e as nossas limitações à vida, embora imprescindível essa capacidade.

O Tinga foi mais um daqueles que valeu a pena conhecer no futebol.