Depois da juizite, o aprendizado


É tarde outonal em uma comarca gaúcha. Um jovem advogado, carteira da OAB fresquinha, terno simples, gravata sem grife, tem seu primeiro cliente cível. É um professor que estudara em Paris e nunca havia entrado em um fórum – fosse na França, ou em alguma cidade do Rio Grande.

Algumas ovelhas de sua fazendola haviam sido devoradas pelos cachorros do vizinho – daí o porquê da ação indenizatória. A prova é razoável. Há fotos das carcaças e de alguns buracos na cerca e a certeza de que os cães do fazendeiro se banqueteavam, à noite, com os indefesos ovinos.

A solenidade é a audiência de instrução. O autor senta-se à frente do magistrado, para depoimento pessoal.

Talvez surpreso pelo inusitado da situação, o professor cruza as pernas. Sua camisa - sem marca, mas limpíssima e bem passada - está com os dois primeiros botões abertos, mostrando uma pequena medalha pendendo da correntinha de ouro. Pela fenda, percebe-se alguns pelos esbranquiçados no peito do homem sessentão.

O juiz escorrega no elementar, ao ordenar em tom impositivo de extrema juizite:

- Descruze as pernas e feche sua camisa! O senhor está em um fórum na presença de um juiz.

Antes que o advogado intervenha – e nem se sabe se o faria mesmo, porque é pouco experiente - o professor surpreende:

- Eu sei que senhor é o juiz. E eu sou professor e cidadão brasileiro. Vim aqui buscar a prestação jurisdicional do Estado. Fui lesado. Tenho argumentos, provas e um advogado. No que as minhas pernas e a minha camisa têm a ver com isso?”...

O juiz queda-se silente e é notório o seu constrangimento. O depoimento inicia. O magistrado está econômico nas perguntas. Ouvem-se também testemunhas. Uma hora depois, a audiência termina.

O presidente da Subseção local da OAB, informado pela “rádio-corredor” sobre os fatos, comparece ao foro para cumprimentar o jovem advogado. Este, com regozijo, justifica ali mesmo:

- Nesta audiência aprendi mais do que em cinco anos de faculdade graças ao meu professor, que doravante será a minha inspiração para todas as condutas profissionais.

O presidente da Ordem local questiona curioso:

- O seu cliente é professor de Direito Processual, ou de Ética?

O jovem advogado chama o professor que ficara distante no corredor, e esmera-se:

- Apresento-lhe o professor Sérgio, doutor em antropologia. Em duas ou três frases ele ensinou a mim e também ao juiz que a antropologia é a ciência do homem no sentido mais amplo. Engloba origens, evolução, desenvolvimentos físico, material e cultural, fisiologia, psicologia, características raciais, crenças. E principalmente costumes sociais e educação.

Já passa das seis da tarde, é momento de encerrar o expediente forense. O segurança aproxima-se e pede gentil:

- Senhores, preciso fechar o prédio. E em nome do diretor do fórum, solicito-lhes a gentileza de abreviarem a interessante conversa.