De grosso calibre


No prédio com vista para o Guaíba, as pessoas que ali trabalham são lidadoras do direito. Novembro de 2018, uma funcionária compra, pela internet, um vibrador para presentear uma amiga – colega de atividades – aniversariante nos próximos dias. Opta pela entrega do consistente mimo no próprio endereço de trabalho da homenageada – mas esquece que todo pacote que chega naquele prédio passa por raio-X.

Logo depois de a transportadora entregar o colorido pacote, o chefe da segurança é chamado pela encarregada das revisões de rotina:

- Chegou uma coisa estranha para a Doutora Fulana...

A caixa e seu conteúdo de grosso calibre viram assunto de troca de e-mails internos. A direção geral da casa convoca várias pessoas para uma reunião.

Em meio ao palpitômetro, um (a) dos (as) presentes – pretendendo revelar-se bem informado (a) - lembra ter lido que, no ano anterior, uma funcionária dos serviços gerais da TV Globo achara um vibrador num dos banheiros femininos da emissora, no Jardim Botânico, no Rio. E que, na semana seguinte, a serviçal dissera à coluna do jornalista Ancelmo Gois, de O Globo, que “já havia encontrado até camisinha nas faxinas, mas um... bilau de brinquedo fora a primeira vez”.

É dada, então, no prédio porto-alegrense, a palavra ao decano geral para opinar com base em sua respeitada trajetória de vida.

Formal, ele pondera que “a saliência anda em alta no país, tanto que o Sexy Hot registrou um crescimento de mais de 1.000% nas visualizações nos primeiros dez meses do ano, com quatro milhões de acessos e 174 mil horas assistidas na tevê a cabo”.

Quinze minutos depois a reunião termina, com uma conclusão quase filosófica do decano:

- Sempre temos que rever os nossos conceitos...

No dia seguinte, justo a data natalícia da homenageada, a encomenda chega intacta às mãos da destinatária.