A “Menina Veneno”


É dezembro de 2016. Bem vivido, bom de bolso graças à consistente aposentadoria recheada de interessantes penduricalhos, o destacado ex-operador jurídico, viúvo, boa pinta – se é que isso é possível para um cidadão com 70 de idade -  afinal sai com uma moça escultural, bem malhada, 24 anos.

De comum entre eles, só o Direito.

Ele segredara, aos amigos, sua imaginação: “Seria uma ´Menina Veneno´ - com letras maiúsculas - amadora nos embates de Eros, e honrada iniciante das lides do Direito”.

Os dois vão a um restaurante cinco estrelas.

Depois de um opíparo jantar com o melhor vinho da carta, eles acabam no mais envolvente motel da cidade, um duplex com piscina, hidro e solarium (como se o último item fosse necessário para as delícias da madrugada).

Ele já tinha dado a ela antes, claro, uma joia e um vestido de grife.

Descansando após mais ´umazinha´ (viva a pílula azul!), os dois se aconchegam e – meio que preparando novo bote – ela pergunta:

- Benzinho, eu estou saindo muito cara pra você?

O jurista responde na hora:

- Meu amor, na minha idade não tem jeito. Ou a mulher é cara ou é coroa!

No dia seguinte, via motoboy, o douto cidadão despacha para ela – em envelope fechado – um cheque de valor desconhecido, acompanhado de um cartão:

“Menina veneno,

O mundo é pequeno

Demais pra nós dois.

Em toda cama que eu durmo

Só dá você,

Só dá você!”

Fevereiro de 2017, por uma dessas irreversíveis páginas da vida – talvez consequência da pílula azul - o jurista parte da vida terrena para os eflúvios celestiais.

Dezembro de 2018, um dia desses, a “Menina Veneno” é vista depositando flores de saudade no túmulo de um dos cemitérios da Azenha.

Se vivo estivesse, seria a data natalícia do provecto e saudoso homem.